Quando a aparência define quem “cabe” na empresa

Quando a aparência define quem “cabe” na empresa

Por Vanessa Freitas – Coluna Liderança em Foco

A recente matéria da revista Você RH, “Discriminação estética no trabalho”, chama a atenção para um tema pouco debatido, mas de implicações profundas no mundo corporativo: as exigências estéticas institucionais e os impactos que elas causam sobre diversidade, inclusão, contratação e promoção. Observo em muitas culturas organizacionais a forma como as empresas comunicam, mesmo sem perceber, quem “cabe” e quem “não cabe” naquele ambiente. A aparência pode ser uma expressão legítima da identidade, da criatividade e até da cultura de um profissional. Mas quando ela se torna um critério de aceitação ou rejeição, algo está fora do lugar.

Durante anos, ouvi histórias de profissionais que foram orientados a mudar o cabelo, cobrir tatuagens, suavizar o sotaque ou “se vestir de um jeito mais corporativo” para parecerem mais alinhados à imagem da empresa. O problema é que, ao tentar padronizar o que é “profissional”, acabamos reproduzindo uma estética única (eralmente branca, magra, cis e formal) que exclui boa parte da diversidade que enriquece os times. A discriminação estética não é apenas sobre “beleza”, mas sobre poder, pois ela define quem é percebido como preparado, confiável ou “com perfil de liderança”. E isso tem impacto direto na ascensão de mulheres, pessoas negras, acima do pesso, idosas, com deficiência ou com estilos fora do padrão dominante. Por trás de um suposto “padrão de apresentação” pode existir uma barreira silenciosa à inclusão.

 No Espírito Santo, onde convivem diferentes estilos de vida – do ambiente portuário às empresas familiares do interior e aos escritórios modernos da Grande Vitória -, o tema ganha contornos muito próprios. Nossa cultura é diversa, mistura tradição e modernidade, mas ainda carrega traços de conservadorismo nas relações de trabalho. Muitos líderes capixabas me relatam que ainda sentem dificuldade em lidar com expressões de autenticidade que saem do que é considerado “adequado”. Às vezes, a resistência vem disfarçada de preocupação com a “imagem corporativa”, mas na prática o que se reproduz é um olhar excludente.

A boa notícia é que também vejo por aqui empresários capixabas abrindo espaço para o novo. organizações que entendem que diversidade estética não é uma ameaça à imagem e sim uma forma de ampliar repertórios, criatividade e representatividade, pois quando um time reflete a pluralidade do estado em que vive, ele se torna mais humano e inovador.

Como consultora e educadora corporativa, acredito que essa reflexão precisa começar pela liderança. Líderes moldam a cultura pelo exemplo, não só no que dizem, mas em ação! Se as promoções e os cargos de visibilidade continuam concentrados em perfis que seguem o mesmo padrão estético, talvez o problema não esteja na ausência de talentos, mas na forma como o olhar da liderança foi condicionado. Revisar manuais de dress code e políticas internas é importante, mas não basta, é preciso rever crenças,  entender que autenticidade também é uma competência e que ambientes onde as pessoas podem ser quem são tendem a gerar mais engajamento, inovação e pertencimento.

Refletir sobre discriminação estética é trazer luz sobre a diversidade, equidade, tolerância e respeito, é compreender que o “profissional ideal” não tem um formato, um padrão estético, um tom de pele, um tipo de cabelo ou um jeito de se vestir. No mercado capixaba, que cresce e se conecta cada vez mais com outras regiões e culturas, o desafio é equilibrar a valorização da nossa identidade local com uma mentalidade mais aberta, plural e contemporânea. A empresa que quiser atrair e reter talentos hoje precisa estar preparada para conviver com a diversidade e enxergar nela uma potência, não uma ameaça, porque profissional competente não é o que “parece” o melhor, é o que entrega, contribui e inspira, sendo exatamente quem é.

Vanessa Freitas

Mentora em Liderança, Carreira e Gestão | Fundadora da Avalon Consultoria

Colunista da Liderança em Foco – Portal Foco no ES

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