O líder que planeja tudo, menos a si mesmo

O líder que planeja tudo, menos a si mesmo

Por Vanessa Freitas – Liderança em Foco | Portal Foco no ES

tarefas, controla prazos e consegue antecipar problemas antes mesmo que eles aconteçam, transmite segurança, está sempre disponível e dificilmente deixa uma demanda sem resposta. É possível, inclusive, que você tenha se identificado com essa descrição, mas quando observamos sua rotina com mais atenção, percebemos outro cenário: a agenda está completamente preenchida, o almoço acontece entre uma reunião e outra, as férias são adiadas, a atividade física ficou para a semana seguinte e aquela consulta médica continua sendo remarcada. Sempre existe uma prioridade mais urgente ocupando o espaço que deveria ser dedicado ao próprio líder.

Essa é uma realidade que encontro com frequência nos programas de desenvolvimento de lideranças. Conversando com gestores de diferentes segmentos, percebo que muitos conhecem os desafios da empresa, dominam indicadores, conduzem equipes competentes e entregam excelentes resultados e ao mesmo tempo, têm dificuldade para responder uma pergunta simples: quem está planejando a vida do líder?

Ao longo da carreira, desenvolvemos métodos para organizar projetos, acompanhar metas, controlar processos e avaliar desempenho. Planejamos reuniões, definimos cronogramas, acompanhamos entregas e revisamos estratégias sempre que necessário e curiosamente, esse mesmo cuidado raramente é direcionado para quem conduz tudo isso. Percebo que a maioria sabe exatamente o que precisa fazer, conhece a importância do sono, da atividade física, da alimentação adequada, do descanso, do aprendizado contínuo e da convivência com a família. O desafio está na dificuldade de transformar esses cuidados em compromissos tão importantes quanto uma reunião com um cliente ou uma apresentação para a diretoria.

Essa escolha tem consequências. Quanto maior a responsabilidade do cargo, maior deveria ser o cuidado com a capacidade de pensar com clareza, tomar decisões, comunicar expectativas, resolver conflitos e desenvolver pessoas. Entretanto, muitos líderes acabam investindo toda a energia na operação da empresa e muito pouca na manutenção da própria capacidade de liderar.

A neurociência ajuda a compreender esse processo. Quando o cérebro permanece por longos períodos em estado de sobrecarga, ele continua funcionando, mas passa a consumir mais recursos para produzir resultados cada vez menores. Os sinais surgem de forma gradual: a paciência diminui, a criatividade perde espaço, pequenas decisões exigem mais esforço, conflitos se tornam mais difíceis de conduzir e a sensação de estar sempre apagando incêndios passa a fazer parte da rotina.

Durante um treinamento, costumo fazer uma pergunta que quase sempre provoca alguns segundos de silêncio: se você administrasse sua vida da mesma forma que administra sua equipe, estaria satisfeito com os resultados? Essa pergunta me levou a uma constatação que, hoje, orienta boa parte do meu trabalho com formação de líderes: muitos profissionais aprenderam a gerenciar pessoas, projetos e processos, mas nunca foram preparados para gerenciar a si mesmos.

Foi dessa reflexão que nasceu o Método GPS, um modelo de autoliderança que desenvolvi a partir da experiência em consultorias, da formação de líderes e dos estudos sobre neurociência e comportamento humano. O princípio é simples: antes de conduzir equipes, todo líder precisa aprender a conduzir a si mesmo. Assim como um GPS recalcula a rota quando identifica um desvio, a liderança também exige revisões constantes para que não percamos de vista aquilo que realmente sustenta uma jornada consistente.

O primeiro movimento é Gerenciar.

Antes de administrar pessoas, indicadores e resultados, o líder precisa administrar seu tempo, sua energia, sua atenção e suas emoções. São esses recursos que sustentam todas as demais competências da liderança.

O segundo movimento é Priorizar.

Nem toda demanda exige a presença do líder, nem toda tarefa precisa permanecer em suas mãos. Priorizar significa fazer escolhas conscientes, delegar responsabilidades, desenvolver a equipe e criar espaço para aquilo que realmente depende da atuação de quem lidera.

O terceiro movimento é Sistematizar.

Liderar bem não depende apenas de disciplina ou de boa memória, mas da capacidade de criar sistemas que sustentem as decisões do dia a dia. É nesse momento que métodos de trabalho, checklists, agendas, fluxos, inteligência artificial, aplicativos de produtividade e outras ferramentas tecnológicas deixam de ser acessórios e passam a atuar como verdadeiros parceiros da liderança. Quando tarefas recorrentes são organizadas, informações importantes são registradas e parte da rotina é sistematizada, o cérebro reduz a sobrecarga da memória de trabalho e ganha mais espaço para aquilo que realmente exige a atuação do líder: pensar estrategicamente, tomar decisões, desenvolver pessoas e inovar.