Filas no SUS desafiam Espírito Santo, apesar da expansão de consultas, cirurgias e leitos
Estado ampliou a oferta de serviços nos últimos anos, mas demanda crescente e espera por exames e consultas ainda pressionam a rede pública.
A espera por consultas, exames e procedimentos especializados continua sendo um dos principais desafios da saúde pública no Espírito Santo. Apesar da ampliação da oferta de serviços nos últimos anos, pacientes ainda enfrentam dificuldades para conseguir atendimento em algumas especialidades.
O cenário é vivido diariamente por usuários como a comerciante Alessandra de Araújo José, que tem diabetes tipo 1 e aguarda há cerca de um ano e meio por uma consulta com endocrinologista pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Sem conseguir retornar ao especialista para uma nova avaliação, ela relata que passou a ajustar a dose de insulina conforme os níveis de glicemia medidos diariamente.
O problema não está restrito às consultas. O acesso ao atendimento especializado envolve uma cadeia que começa na atenção primária, passa por exames e consultas e pode chegar à internação hospitalar. No Espírito Santo, a Central Estadual de Regulação organiza o fluxo de leitos, consultas e exames, levando em consideração critérios clínicos e a gravidade de cada caso.
A demanda elevada pressiona ainda mais a estrutura pública. Dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), atualizados em julho de 2026, apontam que o Estado possui 7.135 leitos destinados ao SUS. Considerando a população estimada de 4.126.854 habitantes, são cerca de 1,7 leito público para cada mil pessoas.
Entre os procedimentos com maior espera está a ressonância magnética. Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), 17.045 pessoas aguardam pelo exame, que aparece como a maior fila entre os procedimentos citados.
Para especialistas, porém, o aumento das filas não pode ser explicado apenas pela falta de hospitais ou equipamentos. O envelhecimento da população, o crescimento das doenças crônicas e o surgimento de novos fatores de risco também elevam continuamente a procura por consultas, exames e internações.
Nesse contexto, o acompanhamento das filas e dos encaminhamentos precisa ser permanente. A avaliação de especialistas é que o planejamento da oferta deve considerar a demanda antes que os períodos de espera se tornem ainda maiores, reduzindo o risco de agravamento dos quadros de saúde.
Hospitais filantrópicos têm papel central
A rede pública estadual também depende da participação dos hospitais filantrópicos. Atualmente, o Espírito Santo possui 35 hospitais filantrópicos, sendo 33 associados à Federação dos Hospitais Filantrópicos do Espírito Santo (Fehofes), distribuídos por 27 municípios. Em 24 cidades, essas instituições são a única estrutura hospitalar disponível para atendimento da população.
A participação desses hospitais é ainda maior nos atendimentos de maior complexidade. Segundo a Fehofes, 51% das internações realizadas no Estado ocorrem nessas instituições, percentual que chega a 72% quando considerados os procedimentos de alta complexidade.
A sustentabilidade financeira aparece como um dos principais desafios para que essa rede consiga manter e ampliar sua capacidade de atendimento. A atualização dos convênios e uma remuneração considerada adequada são apontadas como fatores importantes para permitir novos investimentos em leitos, equipamentos e equipes.
Atenção básica é apontada como caminho para reduzir filas
Embora a expansão da estrutura hospitalar seja necessária, especialistas defendem que parte da solução para as filas está na porta de entrada do sistema. Uma atenção primária mais estruturada pode evitar que problemas de saúde sejam agravados e reduz a necessidade de encaminhamentos para especialistas e hospitais.
Segundo avaliação de professor do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), uma unidade de saúde bem estruturada pode solucionar mais de 90% dos problemas apresentados pelos pacientes. O fortalecimento desse atendimento é considerado estratégico especialmente para o acompanhamento de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes.
A vacinação também é apontada pela Secretaria de Saúde como uma ferramenta de prevenção capaz de reduzir casos graves e, consequentemente, a necessidade de internações.
Estado amplia oferta de consultas e cirurgias
Nos últimos anos, o Espírito Santo aumentou significativamente a oferta de serviços especializados. Segundo a Sesa, o número de consultas médicas especializadas passou de quase 20 mil em 2018 para mais de 1 milhão em 2025, crescimento de cerca de 50 vezes.
As cirurgias eletivas também tiveram aumento expressivo. O número passou de aproximadamente 40 mil procedimentos em 2018 para 174 mil em 2025, de acordo com a Secretaria de Saúde.
A expansão inclui ainda novos projetos de infraestrutura. Entre eles está o Hospital Geral de Cariacica, que terá 408 leitos para atendimentos de média e alta complexidade e será o maior hospital público do Espírito Santo.
Outra iniciativa é o Complexo Norte, em Linhares, que reunirá hospital, policlínica, Farmácia Cidadã, hemocentro e outros serviços. A proposta é regionalizar o atendimento e diminuir a necessidade de deslocamento dos pacientes para a Grande Vitória em busca de procedimentos especializados.
A ampliação da cobertura do Samu também faz parte da estratégia. A ideia é reduzir o intervalo entre o atendimento inicial e a chegada do paciente a uma unidade capaz de oferecer o tratamento adequado, especialmente em situações de emergência.
Mesmo com os avanços, o desafio permanece. Para especialistas, a redução das filas depende de uma combinação entre expansão da infraestrutura, fortalecimento da atenção primária, melhoria da gestão e integração entre Estado, municípios e hospitais conveniados.
Para quem aguarda atendimento, o impacto é direto. A expectativa é que o crescimento da estrutura seja acompanhado por uma organização capaz de transformar a ampliação da oferta em menor tempo de espera e acesso mais rápido ao tratamento necessário.

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