Ocupar a cadeira é se posicionar

Ocupar a cadeira é se posicionar

Por Vanessa Freitas – Liderança em Foco | Portal Foco no ES

Neste domingo, milhões de brasileiros irão às urnas e, durante alguns segundos diante de uma tela, registrarão escolhas que começaram a ser construídas muito antes daquele momento. Até chegar ali, houve informação, conversa, dúvida, influência, memória e experiência. Tudo isso pesa na escolha e na posição que cada um assume.

Na segunda-feira, a eleição terá passado, mas a necessidade de se posicionar continua em muitos outros lugares, inclusive dentro das empresas. Um líder se posiciona o tempo todo, até quando acredita estar sendo neutro. Adiar uma conversa difícil comunica alguma coisa, reassumir todas as decisões quando a pressão aumenta também, consultar tanta gente a ponto de não conseguir dar uma direção diz algo sobre como aquela pessoa ocupa o seu lugar.

Convivo bastante com empresas de vários portes e seguimentos do Espírito Santo, e em muitas delas esse cenário é visível. A forma como o dono ou a principal liderança se posiciona atravessa a organização rapidamente. O jeito de reagir a um erro, conduzir um conflito, reconhecer uma entrega ou enfrentar um assunto delicado ensina mais sobre a cultura da empresa do que várias frases escritas na parede. E, quando ele se cala, o silêncio também é interpretado. Por isso quando penso em liderança, me interessa menos a velocidade com que alguém responde e mais a base sobre a qual constrói sua posição.

Ao longo dos anos, acompanhei líderes tecnicamente excelentes que, diante de situações difíceis, recorriam quase sempre ao mesmo caminho. Um diretor que tinha delegado decisões voltava a centralizá-las assim que a margem apertava, uma gestora adiava a conversa com um colaborador de baixo desempenho até que ela deixasse de ser de desenvolvimento e virasse crise. Não faltava inteligência a essas pessoas, apenas outras referências que as ajudassem a enxergar outras possibilidades de ação, porque quando as referências são limitadas, tendemos a recorrer às respostas que já conhecemos, repetimos o que funcionou antes, reproduzimos o que aprendemos com antigos líderes ou escolhemos o caminho que dá mais sensação de segurança. Com os anos, há o risco de chamar de experiência o que já virou repetição.

Posicionar-se com consistência pede critério e reflexão. Antes de responder, decidir ou defender uma direção, o líder pode se perguntar que fatos realmente possui, o que está apenas supondo, quem será afetado pela escolha ou ainda quais perspectivas ainda precisa considerar. Vale também uma pergunta menos confortável: estou seguindo este caminho porque ele faz sentido para a situação ou porque é o que conheço e no qual me sinto seguro? São perguntas simples, mas interrompem o automatismo. E o exercício não termina quando a decisão é tomada. É importante olhar depois para o que funcionou, o que não funcionou, que consequências não foram previstas e o que poderia ter sido feito de outro jeito é o que transforma experiência em aprendizado. O repertório cresce assim, com o que se aprende do que se vive.

Formar uma posição é só uma parte, a outra, mais desconfortável, aparece quando chegam as consequências.

É fácil gostar da autonomia que acompanha a cadeira de liderança, difícil é permanecer nela quando uma escolha não dá o resultado esperado: a equipe não executou como deveria, alguém deixou de avisar, o mercado mudou, a informação não chegou. Tudo isso pode acontecer, mas quem ocupa a cadeira precisa reconhecer, no meio dessas variáveis, o que lhe pertence.

Sustentar uma posição é explicar os critérios que orientaram a escolha, acompanhar os efeitos e assumir a responsabilidade correspondente. É também reconhecer quando fatos novos exigem outro caminho. Coerência não é rigidez, o líder que revê sua posição diante de novas evidências não perde autoridade e mostra que suas escolhas estão apoiadas em critérios, não na necessidade de provar que estava certo.

Neste domingo, teremos um encontro bastante concreto com o ato de escolher quem assumirá uma posição de nos representar, na segunda-feira, esse exercício continua em outros lugares: numa reunião, diante de um conflito, numa conversa que vem sendo adiada, naquela decisão que ninguém quer assumir. E para quem ocupa uma cadeira de liderança vale refletir se existe algum assunto na sua empresa diante do qual você vem se calando, adiando ou esperando que outra pessoa se posicione por você. Se existe, vale reunir os critérios, as reflexões e as referências de que você precisa para construir uma posição que consiga explicar, assumir e sustentar.

Ocupar a cadeira exige repertório para pensar antes de se posicionar e responsabilidade para continuar presente depois.

Vanessa Freitas

Consultora de  Carreira e  Cultura Organizacional | Fundadora da Avalon Consultoria

Colunista da Liderança em Foco – Portal Foco no ES

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