Mensagens de Vorcaro ampliam crise no STF e colocam relação com Moraes sob análise

Mensagens de Vorcaro ampliam crise no STF e colocam relação com Moraes sob análise

Diálogos extraídos do celular do ex-banqueiro foram tornados públicos por André Mendonça; PGR questiona investigação e plenário do Supremo poderá analisar o caso

A divulgação de mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, aumentou a tensão dentro do Supremo Tribunal Federal (STF). Os documentos, tornados públicos após decisão do ministro André Mendonça, relator do caso, mostram uma sequência de contatos de Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes durante o período que antecedeu sua prisão pela Polícia Federal.

Segundo os registros, em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso, Vorcaro questionou Moraes sobre a possibilidade de deixar o país e mencionou o juiz Ricardo Augusto Soares Leite, responsável pela ordem de prisão, além do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. No dia seguinte, voltou a perguntar sobre a possibilidade de uma intervenção no caso.

Na data da prisão, Vorcaro enviou nova mensagem às 17h26 perguntando se Moraes havia conseguido obter informações ou impedir a medida. A prisão preventiva havia sido determinada às 15h29. O empresário acabou detido no Aeroporto Internacional de São Paulo, quando se preparava para viajar para Malta.

A Polícia Federal, porém, recuperou apenas as mensagens enviadas por Vorcaro. As eventuais respostas de Moraes não foram obtidas porque, segundo os documentos, os interlocutores utilizavam imagens de visualização única encaminhadas pelo WhatsApp.

Para Mendonça, o conteúdo reforça a necessidade de esclarecer se Vorcaro buscava intervenções junto a autoridades públicas e de identificar os envolvidos em uma possível rede de influência. O ministro defendeu que o plenário do STF analise os novos elementos de forma pública e transparente.

PGR questiona validade da investigação

A Procuradoria-Geral da República (PGR), entretanto, apresentou uma posição diferente. O procurador-geral Paulo Gonet pediu a anulação da parte da investigação relacionada às conversas envolvendo Moraes.

Segundo Gonet, Mendonça teria determinado diretamente à Polícia Federal o aprofundamento da apuração sobre o ministro sem que houvesse autorização prévia do plenário do STF. Na avaliação da PGR, uma eventual investigação contra um integrante da Corte deveria seguir outro procedimento.

O episódio colocou em discussão não apenas o conteúdo das mensagens, mas também os limites de atuação de ministros do próprio Supremo durante investigações que envolvem integrantes da Corte.

Contratos milionários também entram no caso

Os documentos analisados pela Polícia Federal também apontam para a relação comercial entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.

Metadados de uma minuta contratual indicam que uma versão do documento foi alterada por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, em janeiro de 2024. O acordo previa serviços advocatícios e consultoria estratégica, com pagamentos de R$ 3,6 milhões mensais por 36 meses, chegando a aproximadamente R$ 131 milhões.

Mensagens atribuídas a Vorcaro também demonstram que ele considerava os pagamentos ao escritório especialmente relevantes e cobrava internamente que não houvesse atrasos.

Além desse contrato, documentos mencionados na investigação apontam para outro acordo, estimado em R$ 50 milhões, que envolveria cotas de um avião e de um helicóptero. O material também registra referências a uma estadia de Moraes em Campos do Jordão organizada por Vorcaro.

O escritório de Viviane Barci de Moraes afirmou que Alexandre de Moraes foi consultado na condição de marido da sócia-diretora para verificar eventuais impedimentos legais. Segundo a defesa, não havia previsão de atuação no STF e o ministro não teria julgado causas relacionadas ao Banco Master.

Encontro entre Moraes e Mendonça aumenta tensão

A crise também alcançou diretamente os dois ministros envolvidos na condução do caso. Segundo reportagem do Metrópoles reproduzida pelo Tribuna Online, Moraes e Mendonça tiveram uma discussão no gabinete de Mendonça na segunda-feira (31).

O encontro teria ocorrido após Moraes tomar conhecimento do aprofundamento das investigações sobre as mensagens. De acordo com a publicação, os dois ministros divergiram sobre a condução da apuração e sobre como Moraes teria tomado conhecimento de informações que estavam sob sigilo.

O episódio acrescentou uma nova dimensão ao conflito interno no STF, justamente enquanto o plenário poderá ser chamado a decidir sobre os desdobramentos das mensagens.

Nesta quarta-feira (2), o presidente do Supremo, Edson Fachin, afirmou que a ocupação de um cargo na Corte não concede privilégios e ressaltou que ministros estão sujeitos a deveres, limites e responsabilidades previstos na Constituição e nas leis. Fachin não citou diretamente Moraes nem Mendonça, mas afirmou que anunciará as medidas cabíveis nos próximos dias.

A eventual análise pelo plenário dependerá da condução processual dentro do Supremo. Até o momento, as mensagens recuperadas pela PF representam registros enviados por Vorcaro, sem que tenham sido localizadas as possíveis respostas de Moraes. O conteúdo e seus efeitos jurídicos ainda serão objeto de avaliação pelas instituições responsáveis.