Heart Skills: as habilidades humanas que ganham força na era da Inteligência Artificial

Heart Skills: as habilidades humanas que ganham força na era da Inteligência Artificial

Por Vanessa Freitas – Liderança em Foco | Portal Foco no ES

Durante muito tempo, o mercado de trabalho valorizou prioritariamente aquilo que uma pessoa sabia fazer. Formação, domínio de ferramentas, conhecimento técnico e experiência formavam o conjunto das chamadas hard skills e eram determinantes para contratar, promover e reconhecer um bom profissional. À medida que as relações de trabalho se tornaram mais complexas, percebemos que saber fazer não era suficiente, porque profissionais tecnicamente excelentes também precisavam se comunicar, trabalhar em equipe, liderar, administrar conflitos, adaptar-se e tomar decisões. Foi nesse contexto que as soft skills ganharam espaço e passaram a ocupar uma parte importante das agendas de desenvolvimento das empresas.

 

Agora, diante do avanço da Inteligência Artificial, do trabalho remoto e híbrido, dos conflitos geracionais e de culturas organizacionais que precisam se adaptar em uma velocidade cada vez maior, outra dimensão começa a ganhar relevância: as heart skills, habilidades relacionadas à nossa capacidade de criar conexão genuína com outras pessoas por meio da empatia, escuta, presença, sensibilidade, confiança, respeito e consciência sobre o impacto que provocamos no outro.

 

Não considero que as heart skills substituam as competências técnicas ou comportamentais, mas acrescentam uma camada que, por muito tempo, recebeu pouca atenção no ambiente corporativo: a qualidade humana presente nas relações. Uma pessoa pode dominar uma ferramenta e, ainda assim, ter dificuldade para construir confiança, assim como pode conhecer técnicas de feedback sem conseguir perceber o momento emocional de quem está à sua frente. Da mesma forma, alguém pode ocupar uma posição de liderança, conhecer metodologias de gestão e entregar bons indicadores, enquanto produz medo, insegurança ou distanciamento na própria equipe.

 

Em muitos trabalhos que realizo nas empresas, encontro profissionais que já participaram de treinamentos sobre liderança, comunicação, feedback, inteligência emocional e gestão de conflitos. Eles conhecem os conceitos e, muitas vezes, conseguem explicá-los muito bem, porém a dificuldade aparece quando precisam transformar esse conhecimento em comportamento diante de situações reais, principalmente quando existem pressão, divergências, cobranças e emoções envolvidas. Por isso, tenho investido cada vez mais em experiências vivenciais nos processos de aprendizagem corporativa, utilizando arte, esporte, jogos, mindfulness, Ikebana e palestras inspiracionais para criar situações nas quais as pessoas possam experimentar, perceber e refletir antes de simplesmente conceituar.

 

Não se trata de levar uma atividade diferente para dentro da empresa apenas para tornar um treinamento mais interessante ou para cumprimento de um indicador, porque existe uma intencionalidade pedagógica por trás de cada experiência e uma compreensão de como atenção, emoção, percepção e memória participam da aprendizagem. Quando proponho uma experiência com arte, por exemplo, posso trabalhar atenção, percepção e diferentes maneiras de interpretar uma mesma realidade, enquanto no esporte surgem elementos relacionados à cooperação, confiança, estratégia, frustração, comunicação e tomada de decisão. Nos jogos, por sua vez, comportamentos aparecem de maneira muito espontânea e conseguimos observar quem assume a liderança, quem escuta, quem interrompe, quem tenta controlar tudo, quem observa antes de agir e quem percebe que alguém está com dificuldade e decide ajudar. Até uma experiência aparentemente simples pode revelar muito sobre a maneira como nos relacionamos. A arte também tem ocupado um lugar importante nas experiências que desenvolvo porque nos convida a desacelerar, contemplar e perceber detalhes que sempre estiveram diante de nós, mas que a pressa muitas vezes não nos permitia enxergar.

 

A neurociência nos ajuda a compreender por que experiências dessa natureza podem ser tão importantes nos processos de desenvolvimento, já que aprender não significa apenas receber informação. Atenção, emoção, memória, percepção e contexto participam da maneira como uma experiência é processada e posteriormente recuperada.

 

É nessa conexão entre experiência, reflexão e realidade que uma atividade deixa de ser apenas algo interessante e passa a produzir aprendizagem com significado. A Inteligência Artificial já consegue executar tarefas que, até pouco tempo, considerávamos exclusivamente humanas, organizando informações, produzindo textos, analisando dados, criando imagens, identificando padrões e apoiando decisões em uma velocidade impressionante. Esse avanço não diminui a importância das pessoas, mas muda aquilo que precisamos desenvolver nelas, pois, à medida que a tecnologia assume parte das tarefas operacionais e cognitivas, cresce o valor das capacidades relacionadas à qualidade das relações humanas, como construir confiança, compreender contextos, lidar com ambiguidades, perceber emoções, mediar conflitos, mobilizar pessoas e criar pertencimento.

 

Uma IA pode ajudar um líder a estruturar um feedback, sugerir perguntas para uma reunião ou organizar informações sobre sua equipe, mas ainda será responsabilidade desse líder olhar para a pessoa que está à sua frente, perceber suas reações, escolher o momento adequado, escutar e conduzir uma conversa com respeito. Da mesma maneira, a tecnologia pode apoiar inúmeras decisões relacionadas à gestão de pessoas, mas não assume a responsabilidade pela cultura que construímos todos os dias por meio das nossas atitudes e relações.

 

Existe ainda um equívoco que precisamos superar quando falamos em humanização no ambiente de trabalho, porque algumas pessoas continuam associando uma liderança mais humana à ausência de cobrança, metas ou desempenho e reforço que humanizar não significa reduzir expectativas, mas compreender que resultados são produzidos por pessoas e que a qualidade das relações interfere diretamente na capacidade de aprender, cooperar, inovar, permanecer e entregar. Uma liderança empática pode realizar conversas difíceis, estabelecer limites, cobrar resultados e tomar decisões que nem sempre agradarão a todos, mantendo, ainda assim, respeito e responsabilidade na forma como conduz essas relações.

 

É por isso que acredito que as heart skills não podem ser vistas apenas como características de pessoas naturalmente sensíveis, que “abraçam árvores” mas entender que complementam com as hard e soft skills e ocupam um espaço mais intencional no desenvolvimento de líderes e equipes.

 

Em tempos de Inteligência Artificial, nosso diferencial provavelmente não estará em competir com a máquina naquilo que ela consegue fazer com mais velocidade, mas em desenvolver com mais consciência aquilo que continua dependendo de nós: a capacidade de olhar para o outro, criar conexão, construir confiança e compreender que, antes de qualquer cargo, indicador ou processo, existem pessoas aprendendo a trabalhar com outras pessoas.

 

Com fé na ciência e nas pessoas,

 

Vanessa Freitas

Mentora em Liderança, Carreira e Gestão | Fundadora da Avalon Consultoria

Colunista da Liderança em Foco – Portal Foco no ES

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