Projeto transforma horta em ferramenta terapêutica para crianças e adolescentes em Cariacica
Iniciativa do CAPSi utiliza plantio, colheita e contato com a natureza para estimular socialização, autonomia, saúde mental e criar alternativas ao uso excessivo de telas
Colocar as mãos na terra, plantar uma semente, acompanhar seu crescimento e, depois, colher aquilo que foi cultivado. Uma experiência aparentemente simples está sendo utilizada como parte do cuidado com a saúde mental de crianças e adolescentes atendidos pelo Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) de Cariacica.
Batizado de (Se)mentes, o projeto transforma atividades de horticultura em ferramentas terapêuticas, criando um ambiente de convivência, aprendizado, autonomia e conexão com o mundo fora das telas.
As atividades são realizadas semanalmente na sede do CAPSi e envolvem diretamente os pacientes em todas as etapas.
Os participantes ajudam na construção e manutenção dos canteiros, cultivam hortaliças, acompanham o desenvolvimento das plantas e também cuidam de uma composteira.
Mas o trabalho vai muito além da horta.
Plantar também vira oportunidade para conversar
Durante os encontros, as atividades são acompanhadas por momentos de convivência e rodas de conversa mediadas pelos profissionais da equipe.
A proposta é utilizar o ambiente criado ao redor do cultivo como espaço para estimular a comunicação, a socialização e a troca de experiências entre crianças e adolescentes.
O contato com a natureza também oferece uma experiência concreta em um cotidiano cada vez mais dominado por celulares, computadores, videogames e outros dispositivos digitais.
Segundo o psicólogo Guilherme Miranda, uma das questões frequentemente observadas entre os pacientes atendidos pelo CAPSi está relacionada justamente aos impactos provocados pelo uso excessivo de telas.
Nesse contexto, a horta cria novas possibilidades de interação.
A criança deixa temporariamente o ambiente virtual para participar de uma atividade que exige contato com outras pessoas, responsabilidade, paciência e acompanhamento de um processo real: preparar a terra, plantar, cuidar e esperar o desenvolvimento.
Alternativa ao excesso de telas
A iniciativa ganha relevância diante de um desafio cada vez mais presente na rotina de crianças, adolescentes e suas famílias.
O uso excessivo de dispositivos digitais pode reduzir oportunidades de convivência presencial e limitar outras experiências importantes durante o desenvolvimento.
No projeto (Se)mentes, a proposta não é apenas afastar os participantes das telas durante algumas horas, mas ampliar o repertório de atividades e relações que fazem parte de suas rotinas.
A horticultura funciona, assim, como instrumento para estimular novas formas de participação e interação com o ambiente.
Do plantio à mesa
Outro diferencial é que os participantes conseguem acompanhar todo o ciclo daquilo que cultivam.
Os alimentos produzidos na horta são posteriormente colhidos e preparados pelos próprios usuários do serviço.
O processo ajuda a desenvolver responsabilidade e autonomia, permitindo que crianças e adolescentes percebam concretamente o resultado do cuidado dedicado às plantas.
Cada etapa passa a ter um significado: plantar, esperar, cuidar, colher e utilizar aquilo que foi produzido.
Saúde mental para além do consultório
O projeto também amplia a ideia tradicional de atendimento em saúde mental.
Em vez de concentrar todas as ações exclusivamente dentro de consultórios, o CAPSi utiliza atividades coletivas e experiências práticas como parte das estratégias de cuidado.
Para o secretário municipal de Saúde, Renan Poton, iniciativas desse tipo contribuem para uma abordagem mais humana e dinâmica, combinando acompanhamento profissional, convivência social e contato com a natureza.
No projeto (Se)mentes, a própria lógica da agricultura acaba representando a proposta do trabalho desenvolvido com os participantes: alguns resultados não aparecem imediatamente.
É preciso preparar, plantar, acompanhar e cuidar.
E, assim como acontece em uma horta, o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes também pode ser construído aos poucos, com atenção, oportunidade e tempo.

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