Sabemos um pouco de tudo e aprofundamos quase nada.
Por Vanessa Freitas – Liderança em Foco | Portal Foco no ES
Nunca tivemos tanto acesso à informação. Cursos, livros, vídeos, podcasts, artigos e ferramentas de inteligência artificial estão disponíveis a poucos cliques. Podemos aprender praticamente qualquer coisa, a qualquer hora, mas tenho me perguntado se toda essa facilidade está realmente nos ajudando a aprender ou se estamos apenas acumulando informações. Tenho observado, especialmente nos ambientes de trabalho, profissionais que participam de treinamentos, acompanham especialistas, salvam conteúdos e acumulam certificados, mas encontram dificuldades para colocar em prática aquilo que aprenderam e acredito que parte disso esteja relacionada à maneira como temos consumido informação.
Existe uma pressão constante para acompanhar as novidades, conhecer novas ferramentas e estar sempre atualizado. Enquanto tentamos dar conta de tudo, nossa atenção se divide entre mensagens, reuniões, notificações e demandas que parecem não ter fim. Começamos uma leitura e logo interrompemos para responder alguma coisa, assistimos a uma palestra enquanto conferimos o celular, salvamos conteúdos interessantes com a intenção de consultar depois, mas raramente voltamos a eles. Aos poucos, vamos nos acostumando a passar pela superfície dos assuntos, sem dedicar tempo suficiente para compreendê-los. E isso me preocupa, principalmente quando penso na aprendizagem dentro das organizações, porque ter acesso a uma informação não garante que ela será compreendida, lembrada ou utilizada.
Aprender exige atenção, reflexão e oportunidade de experimentar.
Precisamos relacionar o conteúdo às nossas experiências, questionar o que ouvimos e perceber como aquele conhecimento pode contribuir para o nosso trabalho. Quando pulamos essas etapas, corremos o risco de conhecer muitos conceitos e continuar repetindo os mesmos comportamentos. Um líder por exemplo, pode participar de vários treinamentos sobre comunicação e continuar encontrando dificuldades para conversar com sua equipe. Pode conhecer diferentes ferramentas de gestão e ainda não conseguir organizar as prioridades do próprio trabalho. Muitas vezes, o conhecimento está disponível, mas falta a oportunidade de praticar, receber orientações e desenvolver segurança para utilizá-lo.
Por isso, quando converso com empresas sobre desenvolvimento de pessoas, gosto de trazer essa reflexão: o que esperamos que os profissionais façam de diferente depois de uma experiência de aprendizagem?
Essa pergunta ajuda a direcionar melhor os investimentos em educação corporativa. Afinal, oferecer muitos cursos não garante que as pessoas estejam se desenvolvendo, porque é preciso compreender as necessidades reais, escolher conteúdos que façam sentido e acompanhar como aquilo que foi aprendido aparece nas atividades do dia a dia. Também considero importante olhar para o ambiente que estamos oferecendo às pessoas. Tenho visto líderes incentivarem suas equipes a aprender, mas manterem rotinas tão tomadas por urgências e interrupções que dificilmente sobra tempo para refletir sobre o próprio trabalho. E, quando qualquer demanda se torna prioridade, até os momentos destinados ao desenvolvimento acabam sendo tratados como algo que pode esperar.
A maneira como organizamos o trabalho influencia diretamente nossa capacidade de aprender. Uma equipe que consegue conversar sobre seus erros, compartilhar experiências e testar novas maneiras de fazer as coisas encontra mais oportunidades de desenvolver conhecimento. Por outro lado, quando as pessoas apenas executam tarefas, sem tempo para compreender o que fazem e por que fazem, experiências importantes acabam se perdendo. Tenho defendido que precisamos valorizar mais a aplicação do conhecimento. Se um líder deseja melhorar a qualidade dos feedbacks, por exemplo, ele pode escolher uma abordagem, estudá-la com atenção e utilizá-la nas próximas conversas com sua equipe. Depois, pode observar o que funcionou, identificar o que precisa ajustar e continuar praticando. Esse processo pode ensinar muito mais do que consumir vários conteúdos sobre o mesmo assunto sem experimentar nenhum deles e isso também exige aprender a fazer escolhas. Nem toda novidade precisa entrar na nossa rotina, nem todo conteúdo merece nossa atenção e nem toda ferramenta precisa ser adotada imediatamente. Selecionar aquilo que realmente contribui para os nossos objetivos é uma maneira de preservar tempo e energia para aprofundar o que importa.
Acredito que precisamos rever a maneira como avaliamos nossa própria aprendizagem. Em vez de contar quantos livros lemos, quantos cursos concluímos ou quantas palestras assistimos, podemos começar a observar o que conseguimos compreender, aplicar e compartilhar com outras pessoas.
Continuar aprendendo será cada vez mais necessário, mas acredito que nosso maior desafio será cuidar da atenção que dedicamos a esse processo, porque só conseguimos aplicar com consistência aquilo que compreendemos.
Conhecimento não se mede pela quantidade de informação que acumulamos, mas pelo que conseguimos fazer com aquilo que aprendemos.
Vanessa Freitas
Consultora de Carreira e Cultura Organizacional | Fundadora da Avalon Consultoria
Colunista da Liderança em Foco – Portal Foco no ES
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Jornalista e corretora ortográfica. Atua na revisão, padronização e produção de conteúdo jornalístico, com experiência em rede de notícias e assessoria de imprensa, assegurando clareza, precisão e credibilidade da informação.



