O voto do colaborador não pertence à empresa
Por Vanessa Freitas – Liderança em Foco | Portal Foco no ES
Há um comportamento que reaparece em praticamente toda eleição e que ainda gera insegurança entre empresários e gestores: a tentativa de influenciar ou até obrigar colaboradores a votar em determinado candidato. Em alguns casos isso acontece de forma explícita, por meio de ameaças, promessas de benefícios ou receio de demissão, em outros, aparece de maneira mais sutil, em comentários durante reuniões, manifestações do gestor, convites que parecem obrigatórios ou naquela conhecida “orientação” sobre o que seria melhor para a empresa.
O empresário, o diretor, o gestor e o colaborador têm direito às suas próprias convicções políticas, afinal, a democracia pressupõe a liberdade de pensamento e a possibilidade de pessoas que trabalham juntas fazerem escolhas diferentes. O problema começa quando a posição hierárquica é utilizada para transformar uma opinião pessoal em expectativa de obediência, porque existe uma relação de poder que não pode ser ignorada. Quando um gestor diz que “a empresa precisa que determinado candidato ganhe”, comenta que alguns empregos podem estar em risco dependendo do resultado das eleições ou deixa claro que espera determinado posicionamento da equipe, a mensagem pode ganhar um peso muito diferente para quem a recebe. Mesmo sem uma ameaça direta, o colaborador pode entender que discordar terá consequências para sua permanência, suas oportunidades ou sua relação com a liderança. E quando a conversa política deixa de ser apenas uma manifestação de opinião, passa a representar um risco para a organização, porque o voto é livre, secreto e individual, portanto, não cabe à empresa determinar, fiscalizar ou constranger a escolha política de quem trabalha nela. Da mesma forma, não cabe solicitar comprovação de voto, exigir participação em eventos políticos, condicionar benefícios a apoio eleitoral ou utilizar reuniões, grupos corporativos e relações de trabalho como instrumentos de pressão.
E esse cuidado não deve ser tratado apenas como uma questão eleitoral. Estamos falando também de relações de trabalho, compliance, reputação e cultura organizacional, porque uma empresa que fala sobre confiança, respeito e segurança psicológica precisa demonstrar esses valores também quando surgem as diferenças. Uma liderança que respeita seus colaboradores não precisa saber em quem eles votarão, assim como não precisa convencê-los a pensar politicamente da mesma forma. Pode haver diálogo, opiniões diferentes e até debates, desde que exista liberdade para concordar, discordar ou simplesmente não participar da conversa, sem receio de qualquer consequência profissional.
Em ano eleitoral, essa atenção precisa alcançar principalmente quem ocupa posições de liderança e orientá-los sobre limites, condutas e respeito às escolhas individuais. Reforço que a empresa pode e deve incentivar cidadania, estimular seus profissionais a conhecerem propostas, acompanharem o processo eleitoral e exercerem conscientemente o direito ao voto, mas existe uma diferença importante entre incentivar participação política e direcionar escolha política e essa fronteira precisa estar muito clara, porque em um ambiente de trabalho saudável, ninguém deveria precisar esconder uma opinião para proteger o próprio emprego, concordar com o chefe para preservar oportunidades ou sentir que sua escolha na urna será utilizada para medir comprometimento com a empresa.
O voto pertence ao cidadão, não ao empregador.
Respeitar essa escolha não é apenas cumprir a legislação, é uma demonstração concreta da cultura que a empresa afirma defender.
Com consciência,
Vanessa Freitas
Mentora em Liderança, Carreira e Gestão | Fundadora da Avalon Consultoria
Colunista da Liderança em Foco – Portal Foco no ES
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