Mais de 2,8 mil aguardam transplante no ES; famílias ainda recusam doação de órgãos
Estado registrou 38 doações no primeiro semestre de 2026, enquanto negativas familiares chegaram a 55,9% das entrevistas realizadas no período
A fila por um transplante de órgão reúne 2.841 pessoas no Espírito Santo, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). O número inclui pacientes que aguardam por rins, córneas, fígado e coração e expõe um dos principais desafios para ampliar os transplantes: a autorização das famílias para a doação.
Entre janeiro e junho de 2026, foram realizadas 102 entrevistas com familiares de potenciais doadores no Estado. Em 57 casos, a família não autorizou a doação, o equivalente a 55,9% das entrevistas. No mesmo período de 2025, foram 88 entrevistas e 49 recusas.
Ao mesmo tempo, o Espírito Santo registrou 38 doações de órgãos no primeiro semestre deste ano, três a mais que no mesmo período de 2025.
Fila tem 1,7 mil pessoas à espera de rins e córneas
Até esta quarta-feira (19), a lista estadual contabilizava 1.040 pacientes aguardando transplante de rim, além de 1.726 à espera de córneas. Outros 66 pacientes aguardavam por um fígado e nove precisavam de um coração.
Entre os pacientes está o jornalista aposentado Julius Cezar Carvalho Silva, de 66 anos, que aguarda um transplante de fígado. Diagnosticado com cirrose há mais de seis anos, ele entrou na lista de espera em 30 de julho e está internado em uma UTI há cerca de um mês.
Segundo a filha, a médica Julia Pitangui Silva, a família acompanha o quadro enquanto espera por um órgão compatível.
“Quando alguém que a gente ama entra em um quadro crítico como esse, a vida de toda a família fica em pausa”, relatou.
Diante da situação, familiares e amigos passaram a utilizar as redes sociais para conscientizar sobre a importância da doação de órgãos.
Falta de informação ainda é desafio
De acordo com a coordenadora da Central Estadual de Transplantes (CET-ES), Maria Machado, entre os fatores que contribuem para a recusa familiar estão dúvidas e informações equivocadas sobre o procedimento.
Um dos receios mencionados é relacionado à aparência do corpo após a retirada dos órgãos. Segundo a especialista, o procedimento é realizado cirurgicamente e o corpo é posteriormente reconstruído para permitir a realização do velório normalmente.
Outro obstáculo é quando a família desconhece a vontade da pessoa que morreu. Por isso, a orientação é que quem deseja ser doador converse previamente com familiares e deixe clara sua decisão.
No Brasil, mesmo que uma pessoa manifeste em vida o desejo de doar seus órgãos, a autorização da família é necessária para que a doação seja realizada.
Como funciona a doação
A doação de órgãos após a morte pode ocorrer depois da confirmação de morte encefálica ou parada cardiorrespiratória, desde que haja autorização familiar.
Entre os órgãos e tecidos que podem ser aproveitados estão rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas, intestino, córneas, valvas cardíacas, pele, ossos e tendões.
Também existem casos de doação em vida, que podem envolver um rim ou parte do fígado e do pulmão, seguindo critérios médicos e legais.
Os órgãos são destinados a pacientes que integram a lista única de espera do Sistema Nacional de Transplantes. A definição dos receptores considera critérios médicos, como compatibilidade, tipo sanguíneo, gravidade da doença e tempo de espera.
Para quem deseja ser doador, a principal orientação é simples: conversar com os familiares sobre essa vontade. É essa manifestação que pode ajudar a garantir que a decisão seja conhecida no momento em que a autorização for necessária.

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