Últimas vagas para o ArteCRIA: um mergulho na educação em arte para crianças e famílias

Últimas vagas para o ArteCRIA: um mergulho na educação em arte para crianças e famílias

A Matias Brotas Arte Contemporânea abre as portas para mais uma edição do ArteCRIA, projeto educativo que desde 2019 vem transformando a relação de crianças, educadores e famílias com a arte contemporânea. Voltado para crianças de 2 a 14 anos, o programa propõe experiências que combinam mediação, prática criativa e reflexão crítica, estimulando a imaginação e o olhar sensível para a produção artística atual.

Nesta edição, o ArteCRIA parte da exposição Banquete para as Multidões, do artista Arthur Arnold, como ponto de partida para vivências imersivas. Durante cada encontro, os participantes são convidados a experimentar diferentes materiais, construir narrativas visuais e desenvolver exercícios práticos que ampliam a compreensão sobre os processos criativos. A experiência se desenrola em três etapas: visitação guiada, prática em ateliê e reflexão coletiva, oferecendo uma imersão completa no universo da arte contemporânea.

Coordenado pela educadora Fernanda Zardo, com mais de 15 anos de atuação na área de educação cultural, o projeto se consolida como um espaço de aprendizagem que vai além da observação passiva. “O ArteCRIA busca instigar a curiosidade e o senso crítico das crianças e suas famílias, mostrando que a arte não é apenas para ser contemplada , mas também para ser vivida e construída”, afirma Zardo.

A proposta do ArteCRIA se alinha a uma tendência global de educação em arte que valoriza a experiência prática e a participação ativa do público. Diferentemente de visitas guiadas tradicionais, que privilegiam a contemplação e a transmissão de informações, este programa incentiva a experimentação sensorial, de  técnicas artísticas e o desenvolvimento de narrativas próprias. “Ao permitir que cada criança crie, interprete e dialogue com a obra, estamos formando cidadãos mais críticos, empáticos e criativos”, complementa a educadora.

O projeto também oferece um espaço importante para o encontro intergeracional. Pais, mães e responsáveis têm a oportunidade de acompanhar o processo de criação e reflexão, fortalecendo vínculos afetivos e promovendo a troca de saberes entre gerações. Essa abordagem amplia o impacto social do ArteCRIA, transformando a experiência artística em um processo coletivo de aprendizagem, diálogo e integração comunitária.

Além de sua função pedagógica, o ArteCRIA reforça a atuação da Matias Brotas como um polo cultural que valoriza a arte contemporânea local e nacional. Com quase duas décadas de atuação, a galeria tem se destacado por apresentar exposições que estimulam debates críticos e estéticos, além de promover ações educativas que conectam públicos diversos ao universo artístico. O projeto educativo é, portanto, uma extensão natural da filosofia da instituição, que acredita na arte como ferramenta de transformação cultural, social e pessoal.

Entrevistas

Fernanda Zardo

Como você percebe a importância de introduzir crianças e famílias no universo da arte contemporânea desde cedo?

A arte é uma expressão de como nos relacionamos com o mundo, por meio de formas, objetos, cores, sensações, experimentos, experiências, pensamentos e vivências nos campos estético, conceitual e afetivo. Apreendemos o universo ao nosso entorno desde os primeiros anos de vida de modo sensível, corpóreo, e, no desenvolvimento dos sentidos e das sensações, a estética é fundamental para como percebemos as coisas e as pessoas, a vida. Ela ajuda a elaborar sentidos, significados e significâncias. (Fernanda Vargas Zardo)

 

De que forma a mediação pedagógica pode transformar a experiência da visita a uma exposição de arte?

A mediação é uma proposta e um recurso de diálogo, que promove uma conversa entre os diferentes e as diferenças. É uma importante ferramenta pedagógica, de ensino, em que se pressupõe a troca de saberes e conhecimentos. Ela propõe uma via de mão dupla, ou múltipla, onde a informação e a experiência partem de dois ou mais lados. A visita desse modo em uma exposição propõe uma participação ativa e interação direta do público com a arte, o artista e o espaço onde inseridos. O público se torna protagonista também dessa relação, em que a sua presença e relação com a obra é fundamental para que ela exista e aconteça.

 

Como o ArteCRIA promove o diálogo entre gerações e fortalece os vínculos familiares através da arte?

O projeto incentiva a formação de arte para crianças e adolescentes, estimulando a interação desse jovem público com as suas famílias, seja compartilhando o que vivenciaram em exposição em casa, no ambiente familiar, convidando-os a conhecerem e verem a exposição a partir de suas experiências com o projeto, seja participando de uma visita e ateliê juntos, criando, elaborando e experimentando em família, como uma atividade para todos. De um modo ou de outro, a vivência do projeto desperta o diálogo familiar, a relação e interação entre criança e seu cuidador, sua responsável, cultivando laços afetivos de trocas respeitosas. A criança se sente vista e valorizada, quando a família percebe e comunica para ela o que ela está a descobrir e a experimentar. Ela se interessa mais ainda por algo quando percebe o interesse da família junto. Ela se instiga a fazer e a interagir, quando vê seu familiar apreciando a sua experiência e a incentivando a ir longe, ir além.

 

De que forma a educação cultural pode impactar a sociedade capixaba no longo prazo?

A educação cultural é fundamental para o reconhecimento do que e como fazemos, como nos expressamos e comunicamos isso no mundo e para o mundo. Ela fortalece o sentimento de pertencimento a um tempo e espaço, assim como também atravessa essas dimensões e possibilita o conhecimento sobre uma dimensão cultural, atemporal, que nos torna humanos. Ela valoriza e promove a diversidade e o respeito às mais diferentes formas de ser e estar no mundo. Isso é democrático e respeitoso com as individualidades em meio a coletivos. No longo prazo, a sociedade capixaba pode ser tornar mais apta a lidar com a diferença, reconhecendo e valorizando o que se cria e se produz aqui, como dialogando, numa troca mais justa, com o que acontece fora.

 

Sobre a exposição Banquete para as Multidões

A obra de Arthur Arnold, que inspira esta edição do ArteCRIA, apresenta-se como um convite à reflexão sobre consumo, sociedade e coletividade. Por meio de elementos visuais instigantes, Arnold estimula o público a questionar hábitos, valores e relações sociais, ao mesmo tempo em que abre espaço para a criação individual. É nesse contexto que o ArteCRIA insere as crianças e famílias, permitindo que cada participante interprete, transforme e expresse suas próprias ideias a partir do material artístico.

Lara Brotas

O que motivou a criação do ArteCRIA em 2019 e quais foram os principais desafios desde então?

O ArteCRIA nasceu da minha experiência pessoal como mãe. Ao acompanhar o crescimento dos meus filhos, percebi a ausência de iniciativas dessa envergadura no Espírito Santo, que colocassem as crianças em contato direto com a arte contemporânea. O desafio desde o início foi estruturar um projeto consistente, que fosse além de uma visita pontual e pudesse se consolidar como uma proposta de formação sensível e criativa, aproximando famílias, escolas e a galeria nesse processo.

Qual é a principal diferença do ArteCRIA em relação a outros projetos de educação em museus e galerias?

O ArteCRIA se diferencia por seu caráter de continuidade. A cada edição, em diálogo com uma nova exposição, abrimos uma janela distinta para o mundo. Isso significa que as crianças não apenas visitam uma mostra, mas mergulham em universos de pesquisa variados, em suportes distintos e em linguagens múltiplas. Essa ação continuada amplia o repertório artístico e cultural, formando olhares mais abertos e curiosos para a arte contemporânea e para o mundo.

O que a mostra Banquete para as Multidões, de Arthur Arnold, traz de especial para a edição atual do projeto?

A exposição de Arthur Arnold traz uma oportunidade única para esta edição do ArteCRIA. Sua pesquisa substitui a tinta por argamassa pigmentada e a tela pela talagarça, materiais pouco comuns no imaginário das crianças, e isso amplia as possibilidades de leitura e experimentação. Além disso, o tema do “banquete” remete à partilha, ao encontro e à coletividade, conceitos que dialogam diretamente com a proposta do ArteCRIA de criar experiências em grupo, onde a criação é também um espaço de convivência.

Quais são os resultados mais marcantes que você já observou na participação das crianças e famílias ao longo das edições?

O que mais nos marca é perceber a transformação no olhar das crianças. Muitas vezes elas chegam tímidas, sem saber o que esperar, e saem cheias de perguntas, ideias e criações próprias. Também é muito especial observar os pais e responsáveis envolvidos nesse processo, redescobrindo a arte junto com os filhos. Essa troca gera vínculos afetivos e memórias que ultrapassam a experiência pontual e permanecem no cotidiano das famílias.

Você acredita que iniciativas como essa podem contribuir para a formação de novos públicos para a arte no Espírito Santo?
Sem dúvida. Quando as crianças vivenciam experiências artísticas desde cedo, elas constroem uma relação natural com a arte, que tende a se estender pela vida adulta. Esse processo forma não apenas futuros artistas, mas também novos públicos, pessoas que compreendem a arte como parte fundamental da vida cultural. No contexto do Espírito Santo, isso significa fortalecer a cena local e ampliar a presença da arte no cotidiano das famílias.

Quais são os próximos passos ou planos de expansão para o ArteCRIA e para a sua atuação como educadora cultural?

Nosso desejo é ampliar o alcance do ArteCRIA, tanto em número de crianças atendidas quanto em possibilidades de parcerias. Isso inclui levar o projeto para outras instituições e cidades, além de fortalecer a sua continuidade dentro da própria galeria. Mais do que expandir em quantidade, o foco é aprofundar a qualidade da experiência, mantendo a arte como vetor de transformação cultural, social e pessoal.

Serviço

ArteCRIA – Educação em arte para crianças e famílias

Data: 04/10 (sábado)

Horário: 10h às 12h

Faixa etária: crianças de 2 a 14 anos

Local: Matias Brotas Arte Contemporânea

Coordenação: Fernanda Zardo

Inscrições: https://forms.gle/6v9hEZ5QDz4296xW9