Teodorico Boa Morte é celebrado em videoclipe “Nosso Planeta Tá Pedindo Paz”

Teodorico Boa Morte é celebrado em videoclipe “Nosso Planeta Tá Pedindo Paz”

Dois anos  após sua morte, o poeta e compositor capixaba Teodorico Boa Morte volta a ocupar espaço de destaque na cena cultural. Sua canção inédita “Nosso Planeta Tá Pedindo Paz” ganhou vida em videoclipe que será lançado oficialmente no próximo dia 07 de setembro, transformando-se em manifesto poético e audiovisual em defesa da preservação ambiental e da consciência social.

A obra, que Teodorico deixou planejada antes de falecer em janeiro de 2023, traz como marca o ritmo do ijexá, com a força do tambor como símbolo de resistência e denúncia. Na letra, o poeta critica a destruição da natureza e denuncia o “monstro” do sistema vigente, chamando à reflexão sobre a ganância humana e a urgência do cuidado com o planeta.

“É um grito de resistência, mas também de amor pela vida. O tambor bate como um alerta e um pedido de paz”, resume a diretora Fernanda Vieira, amiga de mais de duas décadas de Teodorico e responsável pelo roteiro e direção do clipe.

A memória preservada

A relação de Teodorico com os lugares escolhidos para as filmagens dá ao trabalho uma dimensão ainda mais íntima. As locações foram pensadas pelo próprio poeta: o Rio Santa  Maria, o sítio histórico de São José do Queimado e a sede da Serra.

Para Fernanda Vieira, trazer esses cenários para o videoclipe significou honrar um desejo antigo do amigo. “Foram muitos sonhos sonhados juntos. Sempre que eu puder, quero publicar suas obras, porque era o maior sonho do meu melhor amigo”, afirmou.

A produção musical coube a Eldécio Jacob, que destacou a preocupação em respeitar a essência do poeta. “A harmonia e os arranjos foram pensados para refletir a personalidade de Teodorico. Não é apenas música, é memória afetiva transformada em som”, explicou.

Na interpretação, o cantor serrano Fábio Matos deu voz à canção, transmitindo emoção e intensidade. A fotografia foi assinada por Kerley Assis, com edição e color grading da Grace Kingdom Filmes, que reforçaram o caráter estético e documental do trabalho.

 

Um elenco carregado de simbolismo

Entre os nomes do elenco, destaque para Mallu Vieira, indiazinha serrana descendente dos Tupiniquins de Caieiras Velha. A atriz, que é afilhada de Teodorico, emocionou ao representar o papel central da narrativa do videoclipe. “Ela trouxe uma sensibilidade única, carregada de ancestralidade e afeto. Foi como se Teodorico estivesse ali, conduzindo a cena”, disse Fernanda.

Também participaram Daniele Barbosa, Edmilson Ramos e o ambientalista Iberê Sassi, ex-indigenista e reconhecido defensor da natureza. Sua presença no clipe reforça a dimensão ambiental da mensagem, conectando a poesia à militância ecológica.

O figurino ficou sob responsabilidade de Romero Bermudes, enquanto a produção executiva foi conduzida por Hilton de Almeida Neto e Carla Barcelos, com apoio de Marielle Soares.

Cultura e comunidade

A produção contou com apoio do Ponto de Cultura Casa Amarela, da Biblioteca Capixaba Poeta Teodorico e de Tia Nenê, da Banda de Congo de Nova Almeida. A rede de parcerias mostra como a obra ultrapassa a esfera artística individual para se firmar como manifestação comunitária e cultural.

A força de Teodorico Boa Morte

Nascido na Aracruz, Teodorico Boa Morte construiu trajetória marcada por poesia engajada, canto de resistência e valorização da identidade capixaba. Para amigos e admiradores, o videoclipe é mais do que homenagem: é prova de que sua voz continua ecoando.

“Nosso Planeta Tá Pedindo Paz” reafirma o compromisso do poeta com causas universais, como a luta pela justiça social e pela preservação ambiental, mas sem perder o vínculo com a cultura local. O ijexá escolhido como base rítmica ressoa a ancestralidade afro-brasileira e dá força à mensagem de denúncia e esperança.

Entre o luto e a continuidade

A diretora Fernanda Vieira resume a experiência como um gesto de amizade e compromisso. “Depois de 20 anos de amizade, minha vida está marcada por Teodorico. Escolhemos Mallu como sua afilhada em 2015, e desde então a conexão só cresceu. Esse videoclipe é uma forma de garantir que sua obra continue viva”, afirmou.

Mais do que um registro audiovisual, o projeto se apresenta como documento de memória, unindo música, poesia, imagem e comunidade em torno da voz de um artista que fez da palavra instrumento de transformação.

Ficha Técnica

Roteiro e Direção: Fernanda Vieira

Direção de Fotografia: Kerley Assis

Edição e Color Grading: Grace Kingdom Filmes

Produção Musical: Eldécio Jacob

Intérprete: Fábio Matos

Produção Executiva: Hilton de Almeida Neto e Carla Barcelos

Assistente de Produção: Marielle Soares

Figurino: Romero Bermudes

Elenco:

Mallu Vieira

Daniele Barbosa

Iberê Sassi

Edmilson Ramos

Apoio:

Ponto de Cultura Casa Amarela

Biblioteca Capixaba Poeta Teodorico

Tia Nenê, da Banda de Congo de Nova Almeida

Um legado que ecoa

O videoclipe “Nosso Planeta Tá Pedindo Paz” é, ao mesmo tempo, luto e celebração. Luto pela ausência de Teodorico Boa Morte, cuja voz se calou cedo demais. Celebração por sua obra, que insiste em permanecer viva, pedindo reflexão, consciência e ação.

Como escreveu certa vez o próprio poeta, “a palavra só morre quando ninguém mais a pronuncia”. Neste clipe, sua palavra volta a ser dita, cantada e vivida, reafirmando que Teodorico segue entre nós, pedindo paz para o planeta — e para todos nós.

Entrevistas

Fernanda Vieira, roteirista e diretora do Videoclipe.

O que te motivou a levar adiante o projeto do videoclipe?

O que me motivou foi unicamente o desejo de dar continuidade ao trabalho do poeta e fazer uma homenagem e o registro para que as pessoas possam ter acesso de forma mais ampla a uma pequena parte de seu sonho, o videoclipe era um sonho dele.

Teodorico e você conversavam sobre as possibilidade?

Sim, conversávamos  diariamente sobre todas as possibilidades de produzir as obras dele e era algo que aconteceria certamente mas foi interrompido pelo falecimento dele.

Quem é Teodorico Boa Morte e o que significa para cultura da Serra?

_ Teodorico é um mestre da cultura popular, escritor renomado, um dos maiores poetas cordelista que o Espírito Santo conheceu, além de compositor ele também palestrava sobre a história da Serra e contava histórias nas escolas.

Para a Serra Teodorico foi o pai da Cultura Serrana, dedicou a vida em levar sua arte nos quatro cantos da cidade, fazia cultura de verdade, com amor e dedicação, acreditava fortemente que a cultura era um grande instrumento  para o desenvolvimento humano.

Como amigo, ele foi a pessoa mais evoluída que conheci, inteligente, sábio, compreensivo, fiel e companheiro. Meu melhor amigo, meu compadre, quero produzir todos os trabalhos que eu puder, são muitas músicas, roteiros de filmes, poesias, e inúmeras obras literárias. Ele merece e eu prometi que iria fazer. Fizemos alguns trabalhos juntos e vou dar continuidade.

Acho que o município demorou muito pra reconhecer o seu valor, ele era acessível, generoso, simples, humilde, tentou de várias formas mostrar seu trabalho, as vezes foi até humilhado, foi tratado com desprezo por autoridades, mas nada disso o fez desistir. Depois do seu falecimento, demonstraram mais interesse, isso me deixa revoltada, mas como ele mesmo me ensinou, a sociedade é hipócrita.

 

Kerley Assis Diretor de Fotografia

  1. O videoclipe nasceu de uma canção de forte cunho social e ambiental, de autoria de Teodorico Boa Morte. Como você traduziu essa mensagem poética e de denúncia em imagens?

Optamos por uma estética crua e simbólica onde o contraste de natureza e devastação dialogassem com a bela poesia do saudoso Teodorico Boamorte.

Nosso intuito não era apenas ilustrar uma música, mas sim dar vida através de imagens um assunto tão importante.

2. As locações — Rio Santa Maria, São José do Queimado e sede da Serra — têm uma forte carga simbólica. Que papel esses cenários tiveram na construção da narrativa visual do clipe?

Essas locações não foram escolhidas apenas como cenário, elas são personagens vivos dentro da narrativa visual, cada cenário carrega em sí marcas históricas, sociais e ambientais muito profundas que sintetizam perfeitamente a mensagem da letra dessa canção.

O rio santa Maria traduz a força da natureza, mas também a sua fragilidade em relação as ações humanas.

São josé do Queimado tem seu impacto histórico baseado na força, resistência é um lugar que fala de dor, mas também de muita resiliência.

Serra sede com sua rotina urbana e pulsante é o contraponto que precisávamos para mostrar que o problema é aqui, agora e está presente no nosso dia a dia.

3. A fotografia equilibra paisagem natural, elementos históricos e a presença dos intérpretes. Qual foi o maior desafio para alcançar essa unidade estética?

O maior desafio na minha visão foi conectar elementos de dimensões  visuais muito diferentes, a força bruta da natureza com a força da simbologia dos locais históricos e o caos do centro urbano, cada um desses componentes tem uma carga emocional muito forte e harmoniza-los é muito desafiador.

4. O trabalho também é uma homenagem à memória de Teodorico Boa Morte. De que forma essa responsabilidade influenciou suas escolhas na direção de fotografia?

O Teodorico é uma figura icônica pra nós serranos, apesar de ter tido pouco contato com ele, uma certa vez tive o prazer de encontra-lo na igreja dos Reis Magos em Nova Almeida onde pude adquirir um dos seus livros e ouvir alguns poemas, esse dia ficou marcado pra mim.

Fotografar essa obra de Teodorico pra mim é um ato de reverência à um dos artistas mais importantes do nosso estado.

5. Pensando no resultado final, qual cena ou enquadramento você considera mais marcante do videoclipe — aquele que melhor sintetiza a mensagem de “Nosso Planeta Tá Pedindo Paz”?

A cena do homem caminhando lentamente as margens do rio seco, esse enquadramento com horizonte desfocado nos traz o sentimento de dualismo onde ainda podemos usufruir da natureza, porém seu futuro é incerto.