O óbvio é o primeiro a ser esquecido

O óbvio é o primeiro a ser esquecido

Por Vanessa Freitas – Liderança em Foco | Portal Foco no ES

Nos últimos dias, a notícia de uma jovem que participou de uma atividade de aventura e foi arremessada sem que o equipamento de segurança estivesse devidamente conectado, gerou comoção e levantou uma série de discussões sobre responsabilidades, protocolos e falhas humanas.

Ao observar situações como essa, lembrei de diversas situações que acontecem porque alguém acreditou que o outro já havia feito o que precisava ser feito e essa lógica está mais presente no ambiente corporativo do que imaginamos. Ela aparece quando alguém diz que enviou o e-mail e presume que a mensagem foi lida; quando uma orientação é compartilhada e se considera que todos compreenderam ou mesmo quando uma atividade é delegada e se espera que sua execução ocorra exatamente como foi planejada. Em todos esses casos existe um elemento em comum: a expectativa de que o outro fará sua parte sem que haja confirmação.

Foi justamente sobre essa complexidade que o pesquisador David Berlo, em 1960, trouxe importantes contribuições para os estudos da comunicação. Apresentando o framework SMCR (Fonte, Mensagem, Canal e Receptor) ele demonstrou que comunicar não significa apenas transmitir uma informação, ela somente se completa quando a mensagem é recebida, compreendida e interpretada conforme a intenção de quem a enviou. A diferença parece sutil, mas produz impactos significativos. Por exemplo: enviar um e-mail não garante sua leitura; participar de uma reunião não assegura o entendimento das decisões tomadas; delegar uma atividade não significa que ela será executada da forma esperada; compartilhar uma informação não garante sua incorporação à rotina de trabalho.

Muitos erros organizacionais nascem exatamente dessa lacuna entre o que foi comunicado e o que efetivamente foi compreendido. Em operações críticas, essa realidade é tratada com seriedade. Aviação, saúde, construção civil e indústria adotam procedimentos de validação, conferência e rastreabilidade porque sabem que confiar exclusivamente na memória, na experiência ou na interpretação individual aumenta significativamente os riscos. Nesses ambientes, a segurança depende da capacidade de transformar conhecimento em prática padronizada.

Nas empresas, os impactos nem sempre ganham repercussão pública, mas aparecem diariamente na forma de retrabalho, atrasos, falhas operacionais, conflitos entre áreas, desperdícios de recursos, perda de clientes e desgaste da credibilidade institucional. Por essa razão, organizações maduras investem em processos claros, checklists, procedimentos operacionais, normas internas, registros, auditorias e mecanismos de acompanhamento. Essas ferramentas não existem para criar burocracia; elas existem para reduzir a dependência das suposições e aumentar a confiabilidade das operações.

É nesse contexto que a Gestão do Conhecimento assume um papel estratégico. Quando informações relevantes permanecem concentradas na memória de poucos profissionais, a organização se torna vulnerável, o conhecimento é registrado, compartilhado, atualizado e acessível, a empresa preserva sua inteligência, reduz riscos e fortalece sua capacidade de adaptação.

Ainda assim, muitas organizações só reconhecem a importância desse tema quando enfrentam uma crise. Em muitos casos, o problema não surge por falta de competência técnica, mas pela ausência de mecanismos que garantam que as informações certas cheguem às pessoas certas, no momento certo e da forma correta. Manter todos na mesma página exige clareza, documentação, disciplina operacional e uma estratégia consistente de Gestão do Conhecimento.

Líderes e empresários devem refletir continuamente sobre a maturidade dos processos de suas organizações e agir. Equipes de alta performance trabalham com clareza de responsabilidades, informações documentadas e mecanismos que garantem a compreensão e a execução correta das atividades. Quando o conhecimento circula de forma estruturada e todos compartilham o mesmo entendimento sobre o que precisa ser feito, os riscos diminuem e a confiabilidade das operações aumenta. Se a sua empresa ainda não possui processos estruturados, registros confiáveis, mecanismos de compartilhamento do conhecimento e rotinas de validação, busque (urgentemente) apoio especializado.

Bastam poucas horas para que uma falha de comunicação comprometa pessoas, afete famílias, interrompa operações ou destrua reputações construídas ao longo de anos. Reforço que o óbvio, quase sempre, é a primeira coisa a ser esquecida e quando isso acontece, os custos costumam ser muito maiores do que imaginamos.

Com alerta e sustentabilidade empresarial,

Vanessa Freitas

Mentora em Liderança, Carreira e Gestão | Fundadora da Avalon Consultoria

Colunista da Liderança em Foco – Portal Foco no ES

Entre em contato para saber mais sobre o assunto.

@avalonconsultoria

@vanessafreitas.mentora

Contato: [email protected]