Liderar em modo regenerativo Por Vanessa Freitas
Por Vanessa Freitas - Coluna Liderança em Foco | Portal Foco no ES
Outro dia minha filha me explicou sobre o superpoder do axolote, um pequeno anfíbio capaz de se regenerar. Quando perde uma parte do corpo, ele não remenda, não improvisa um conserto provisório, simplesmente faz nascer de novo. Aquela simples converse provocou uma reflexão.
Em tempo marcado por esgotamento emocional, equipes sobrecarregadas e líderes operando no limite da energia, será que a liderança também precisa entrar em modo regenerativo? Porque regenerar não é voltar ao que era antes. Não é restaurar uma forma antiga nem apenas consertar rachaduras no sistema. Regenerar é permitir que algo novo brote exatamente onde antes havia cansaço, erosão ou excesso. E essa mudança de lente transforma a forma como lideramos.
Quando observo o cenário organizacional atual, vejo muitos movimentos legítimos de melhoria, correção e otimização. Tudo isso tem valor. No entanto, a liderança regenerativa me convida a ir além da lógica do ajuste incremental, porque ela me provoca a olhar para como cuidar de quem cuida?
Cuidar, nesse contexto, não é uma metáfora romântica, mas uma prática de gestão. Significa cuidar das pessoas que sustentam o negócio, das relações que mantêm viva a cultura e dos sistemas que garantem a continuidade dos resultados. Esse tipo de cuidado exige sensibilidade para perceber sinais sutis, disciplina para sustentar novas práticas e, sobretudo, coragem para transformar estruturas que já não servem mais nem às pessoas nem ao próprio negócio.
Inspirada por reflexões contemporâneas sobre regeneração, compreendo que liderar de forma regenerativa não é ocupar o centro do palco nem concentrar poder, mas abrir caminhos de passagem, criar condições para que outros cresçam e se desenvolvam e também façam brotar novas possibilidades dentro do sistema. Essa mudança desloca o foco do controle para o cultivo, da pressão para a vitalidade.
E uma das viradas mais importantes desse modelo de liderança é abandonar a lógica do hiperaceleramento como resposta automática para todos os desafios. Nem todo problema pede mais velocidade; alguns pedem mais análise, ou mesmo presença. Liderar de forma regenerativa me exige pensamento sistêmico, a capacidade de enxergar menos eventos isolados e mais redes de causa e efeito. Exige também a maturidade de dar um passo para trás, observar o que está emergindo nas pessoas, nos processos e na cultura antes de decidir o próximo movimento.
Esse caminho pede, sobretudo, lucidez que permita traduzir sinais muitas vezes invisíveis em decisões concretas, políticas vivas e práticas que sustentem a saúde organizacional dentro e fora das empresas. Vivemos em uma era em que a inteligência artificial amplia de forma extraordinária nossa capacidade de prever, mapear padrões e otimizar operações. Ainda assim, existe um território que permanece humano. A tecnologia não sente o silêncio pesado de uma equipe exausta, não percebe o pedido de ajuda escondido em um “está tudo bem”, não capta o cuidado que se manifesta em um olhar ou em uma pausa intencional e é justamente nesse espaço que a liderança regenerativa se torna insubstituível, pois exige profundidade humana, sensibilidade relacional e repertório emocional construído na presença e na escuta qualificada.
Assumir uma mentalidade regenerativa também é, de certa forma, um gesto político e estrutural. Significa ter coragem de revisar acordos invisíveis que já não fazem sentido, repensar métricas que premiam apenas o crescimento infinito em um mundo de recursos finitos e redesenhar cadeias de valor que hoje produzem resultado para poucos e desgaste para muitos. Trata-se de substituir a lente da escassez pela lente da abundância consciente e responsável.
Na prática organizacional, isso se traduz em indicadores que realmente escutam o que está vivo nas pessoas e nos sistemas, em modelos de governança mais abertos e iterativos, em decisões que equilibram curto, médio e longo prazo e em formas mais saudáveis de distribuição de valor.
Se há algo que aprendi observando tanto o axolote quanto as organizações é que processos regenerativos não seguem receitas lineares. Eles se constroem na prática, com consciência, paciência e adaptação contínua. Liderar nesse modo implica desenvolver a capacidade de sentir o contexto antes de intervir, de coevoluir com as pessoas em vez de impor soluções prontas, de recontar histórias que devolvam sentido ao trabalho e de imaginar futuros possíveis para orientar decisões no presente, também implica criar governanças que respiram, capazes de aprender e se ajustar ao longo do caminho, e cultivar o próprio equilíbrio energético. Não existe liderança regenerativa sustentada por líderes cronicamente exaustos. Cuidar do corpo, da energia e da presença deixa de ser um luxo e passa a ser uma competência estratégica.
Talvez uma das características mais bonitas da liderança regenerativa seja justamente sua discrição, pois ela não precisa de palco nem de performance constante. Seus efeitos aparecem na vitalidade das equipes, na coerência das culturas organizacionais, na sustentabilidade dos resultados e na capacidade real de as pessoas prosperarem sem adoecer no processo. É menos sobre aplauso e mais sobre consistência ao longo do tempo.
Ao final daquela conversa com minha filha, percebi que talvez o verdadeiro superpoder que a liderança do nosso tempo precisa desenvolver seja exatamente este: a capacidade de regenerar. Não uma esperança passiva, que aguarda que o cenário melhore sozinho, mas uma esperança ativa, que planta, rega, aprende, ajusta e recomeça quantas vezes forem necessárias.
Tenho a convicção de que estamos apenas no início de uma nova forma de liderar, que não se limita a entregar resultados, mas que também repara, nutre e cria condições para que futuros mais saudáveis brotem, mesmo quando o solo parece árido. Fica, então, uma provocação para cada líder que me lê: sua liderança hoje está apenas sustentando o que existe ou já está, de fato, regenerando o que precisa nascer de novo?
Com estratégia e sustentabilidade,
Vanessa Freitas
Mentora em Liderança, Carreira e Gestão | Fundadora da Avalon Consultoria
Colunista da Liderança em Foco – Portal Foco no ES
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Jornalista e corretora ortográfica. Atua na revisão, padronização e produção de conteúdo jornalístico, com experiência em rede de notícias e assessoria de imprensa, assegurando clareza, precisão e credibilidade da informação.





