“Filha”, de Manoela Sawitzki: um romance sobre memória, violência e sobrevivência
Em “Filha” (Companhia das Letras, 2025), Manoela Sawitzki entrega ao leitor um romance que é ao mesmo tempo um mergulho na intimidade e uma convocação à memória coletiva. A narrativa parte de uma experiência singular — a de Manu, caçula de sete irmãos, que cresce em um ambiente marcado pela dureza da vida no interior do Rio Grande do Sul, nos anos 1980 e 1990 — para tocar em questões universais: a condição de ser mulher em um espaço patriarcal, os silêncios que moldam os vínculos familiares e a relação sempre complexa entre violência, afeto e luto.
Desde as primeiras páginas, a protagonista percebe que ser mulher significa estar submetida a uma série de restrições que se impõem tanto dentro da casa quanto fora dela. Nesse contexto, o lar deixa de ser sinônimo de refúgio e se torna território de aprendizado precoce sobre o medo e a privação. Manu, ainda menina, reconhece que precisa encontrar uma rota de fuga para sobreviver — e esse desejo de escapar, longe de significar apenas uma decisão individual, torna-se metáfora de uma geração inteira de filhas que enfrentaram a rigidez de estruturas familiares dominadas pela masculinidade e pela violência.
Mas Filha não se limita à infância. Anos mais tarde, já adulta, vivendo em outra cidade, Manu recebe a notícia de que o pai está gravemente doente. O retorno à cidade natal, forçado pela iminência da morte, transforma-se em um rito de passagem, em um enfrentamento com fantasmas que permaneciam guardados na memória. É nesse reencontro com o pai que o romance revela sua potência: a literatura se torna espaço de elaboração da ambiguidade afetiva, onde rancor e amor convivem, e onde a dor pode se reconfigurar em compreensão.
Essa ambiguidade é talvez o grande eixo da obra. Sawitzki não oferece respostas fáceis, tampouco reduz a narrativa ao binarismo entre vítima e algoz. Ao contrário, ela constrói uma prosa que se move entre os silêncios, entre aquilo que não se disse e o que se disse de forma fragmentada, compondo um mosaico emocional que expõe a complexidade dos laços familiares. A pergunta que ecoa ao longo das páginas — um pai violento pode ser amado? — não se resolve de maneira definitiva, mas se transforma em matéria literária, em reflexão sobre a vida, o corpo e a herança emocional que atravessa gerações.
Ao inscrever sua experiência pessoal em forma ficcional, Manoela Sawitzki produz um romance com fortes tintas autobiográficas, mas que não se restringe à esfera privada. Ao contrário, Filha abre-se ao leitor como obra coletiva, como espelho em que muitas mulheres podem se reconhecer. É um romance sobre filhas que sobreviveram aos anos 1980 e 1990, mas também sobre aquelas que ainda herdam, hoje, a tarefa de confrontar as violências cotidianas inscritas no seio da família e da sociedade.
A escrita de Sawitzki se caracteriza pela precisão e pela intensidade: é uma prosa que não teme expor feridas, mas que também se permite encontrar beleza e humanidade nos interstícios da dor. Essa sensibilidade literária não é fruto do acaso. Escritora e dramaturga, doutora em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, Manoela já havia explorado as tensões entre corpo, memória e vínculos em obras anteriores, como Suíte Dama da Noite (2009) e Vinco (2022) — este último semifinalista do Prêmio Oceanos. Com Filha, a autora reafirma sua posição no cenário literário contemporâneo como voz potente e necessária, capaz de articular delicadeza poética e contundência política.

Não por acaso, escritoras como Natalia Timerman, Andréa del Fuego e Bruna Beber reconheceram em Filha uma literatura que nasce da explosão íntima para ressoar no coletivo. Ao transformar estilhaços de uma experiência dolorosa em narrativa, Sawitzki constrói não apenas um romance, mas uma obra que questiona o próprio ato de ser filha — e que convida o leitor a pensar sobre a possibilidade de reconciliação, sobre os limites do perdão e sobre o papel do luto na reconstrução de vínculos.
Mais do que uma história sobre uma família do interior gaúcho, Filha é um livro que se inscreve na literatura brasileira contemporânea como um testemunho da força das mulheres que, entre medo e coragem, aprenderam a viver e a escrever sua própria sobrevivência.

Entrevista
Filha é descrito como um romance com fortes tintas autobiográficas. Como foi o processo de transformar experiências íntimas em literatura sem perder a dimensão universal da narrativa?
Quando comecei a escrita do livro, logo entendi que, pra além de uma história que era minha e serviria como base para a criação, havia questões importantes a tratar. A violência doméstica era uma delas — tanto na forma dos pais que batem em seus filhos, quanto na forma de maridos que batem em suas esposas. São formas de violência infelizmente bastante comuns, seja nos anos 80 e 90, no interior do Rio Grande do Sul, que é quando e onde a primeira parte do livro se passa, seja nos nossos dias e em qualquer outra região do país. A violência de ser menina e se tornar mulher num contexto dominado pela masculinidade, era outro tema que me interessava. Essas questões extravasam a experiência pessoal.
A protagonista, Manu, cresce em um ambiente em que a masculinidade exerce um peso opressor. De que forma a escrita se tornou um espaço de resistência e de elaboração dessas vivências?
É preciso falar sobre a violência para que ela seja evidenciada e não calada ou escondida. Assim como é preciso falar sobre as formas de resistência, os dispositivos de sobrevivência que nos permitem não sucumbir totalmente aos traumas. A escrita me permitiu mergulhar nessa nesses dois territórios, e assim chegar numa elaboração mais precisa sobre cada um deles. Porque o tempo da escrita é expandido, a escrita de um livro leva meses, às vezes anos — Filha demorou anos para ficar pronto. E então é preciso encontrar cada palavra para dar conta do que se quer dizer e contar. É um processo intenso.
O retorno à cidade natal diante da doença do pai abre espaço para um acerto de contas com o passado. Como você trabalhou a tensão entre rancor e afeto na relação entre filha e pai?
Essa tensão é um problema insolúvel. A protagonista-narradora da história tem um desejo que se desperta muito cedo: que o pai mude. Demora muito, mas um dia esse pai muda. A questão para ela, como foi para mim, é como lidar com essa ambivalência. Ë possível amara um homem que foi violento? É a pergunta que este livro faz.
Suas obras anteriores já exploram questões de memória, corpo e vínculos familiares. Em que medida Filha dialoga com essa trajetória literária e em que pontos marca uma ruptura?
Filha é um livro irmão do meu livro anterior, chamado Vinco, que foi publicado também pela Companhia das Letras em 2022. Além da linguagem, que une os dois e os afasta dos meus dois primeiros romances, eles têm o comum o desejo de pensar em como uma mulher se torna mulher. Como ela constrói o seu corpo, seu desejo, seus medos, sua forma de estar no mundo.
Muitos leitores e leitoras podem reconhecer em “Filha”,uma conexão geracional, especialmente para as filhas que cresceram nas décadas de 1980 e 1990. Que conversas você espera provocar com esse livro nas mulheres mais jovens e nas próximas gerações?
Tenho recebido muitas mensagens de mulheres leitoras que falam de uma grande identificação, e não apenas daquelas que foram crianças e adolescentes nos anos 80 e 90. Tem algo nessa experiência que se repete. O livro fala, por exemplo, de como as revistas teens, que eram amplamente consumidas nos anos 90, fizeram estrago, traçando padrões e modelos de beleza e comportamentos nocivos, sobretudo no que diz respeito à relação com os garotos. Hoje temos a internet fazendo isso, e com mais alcance ainda, numa dimensão com a qual não podíamos sonhar décadas atrás. Quer dizer, essa conversa continua, precisa continuar.
SERVIÇOS
📖 Durante a programação, haverá sessão de autógrafos com a autora.
📍 O encontro será em Vitória/ES, no espaço A Casa Flor (Rua Gama Rosa, 231 – Centro).
🗓️ Acontece no dia 28 de agosto (quinta-feira), às 19h.
O convite destaca a obra Filha como protagonista do evento, reforçando a oportunidade de leitores conhecerem a escritora e adquirirem exemplares autografados.

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