Desafios do Abastecimento: Por que falta água na Serra quando chove muito?

Desafios do Abastecimento: Por que falta água na Serra quando chove muito?

O corte no abastecimento de água tem causado desconforto para a população da Serra. Em comunicado, a Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) explicou o motivo da medida e pontuou que, embora “pareça contraditório”, o abastecimento de água pode ser afetado quando chove muito. De acordo com a empresa, o motivo do corte não é a falta de água, mas sim o excesso dela, que carrega consigo sedimentos que atrapalham o processo de tratamento.

Isso acontece por causa da grande quantidade de lama e outros detritos que as chuvas levam para o leito dos rios. As florestas nos topos dos morros, e as matas ciliares nos fundos dos vales, protegem os cursos d’água e impedem que todo esse material chegue ao rio. Porém, como essas áreas estão degradadas, há uma piora expressiva na qualidade da água que a Cesan capta nos períodos de chuva forte, dificultando o tratamento e obrigando a empresa a paralisar estações de tratamento com mais frequência para a lavagem de filtros”, explicou a Cesan.

Na Serra, dois rios abastecem a cidade: o Santa Maria da Vitória e o Reis Magos. O primeiro é o mais importante em termos de volume captado e número de pessoas atendidas. A Bacia Hidrográfica do Rio Santa Maria da Vitória está localizada na região central do Espírito Santo e possui uma área de drenagem de aproximadamente 1.876 km², abrangendo cinco municípios capixabas: Santa Maria de Jetibá, Cariacica, Santa Leopoldina, Serra e Vitória. Seus principais afluentes são os rios Possmoser, Claro, São Luiz, Bonito, da Prata, Mangaraí, Caramuru, Duas Bocas, Triunfo, Farinhas, Fumaça e São Miguel.

Em várias partes dessa Bacia, ocorreu degradação ambiental, especialmente nos últimos anos em que atividade imobiliária nas regiões como Santa Tereza degradaram nascentes que alimentavam o Santa Maria; além da extração ilegal de madeira, deixando o rio ainda mais vulnerável ao carreamento de sedimentos e detritos durante os períodos de chuva. O Manual Operativo dos Planos de Recursos Hídricos Capixabas (MOp), publicado pela Agência Estadual de Recursos Hídricos (AGERH), apontou que a bacia se encontra em situação preocupante.

Há alguns anos, a empresa SOMA – Soluções em Meio Ambiente, a pedido da BRASCAN Energética S.A., que prospectava negócios na área do rio, produziu um extenso relatório sobre as condições da bacia. Nele, constatou-se que apenas as partes mais íngremes possuem remanescentes florestais. A maior parte da bacia é composta por pastagens degradadas, com samambaias e cambará. Nas áreas mais baixas e próximas ao rio, são plantados café, banana, milho, feijão e mandioca, condições que favorecem a sedimentação do rio em épocas de chuva. Além disso, contribuem para a degradação do ambiente local os aviários, pocilgas e pequenos matadouros situados na beira do rio, que despejam todos os seus resíduos diretamente nele.

Segundo a Cesan, com as chuvas fortes cada vez mais frequentes devido às mudanças climáticas, e sem as florestas que protegem rios, córregos e lagos, os sedimentos se movem rapidamente e chegam ao leito, aumentando a turbidez (lama) na água. “O fluxo intenso ainda pode provocar o deslizamento das encostas e das margens, elevando a quantidade de resíduos e de terra na água. O nível de turbidez se eleva muito e, nessa condição, a captação de água é suspensa até que o manancial ofereça condições de tratamento para distribuição com qualidade à população”, explica a empresa. A Cesan ainda pontuou que, mesmo após o fim das chuvas, essa condição pode perdurar por algum tempo, até que a vazão de água no rio se normalize.

A Cesan afirmou que tem investido em tecnologia nas estações de tratamento para conseguir tratar a água captada em mananciais que se degradam a cada dia, “principalmente devido à ocupação irregular do solo e ao desmatamento ilegal em áreas de preservação permanente às margens dos rios e no entorno de nascentes”, disse a empresa.

A estatal também citou especificamente investimentos na Serra, dentre eles a expansão da Estação de Tratamento de Água (ETA V), localizada em Carapina, que recebeu investimentos de R$ 61,5 milhões. Recentemente, o presidente da Cesan, Munir Abud, disse ao Tempo Novo que em breve também será anunciada a ampliação da Estação de Tratamento de Reis Magos, que abastece, especialmente, a região de Serra Sede. Além disso, a Cesan anunciou planos relacionados à dessalinização de água do mar e reuso de água para fins industriais, com a intenção de diminuir a demanda da indústria e aumentar a disponibilidade de água para a população.

Números:

A Cesan atende a mais de 2,5 milhões de pessoas, produzindo anualmente mais de 270 bilhões de litros de água. Cerca de 1,8 milhão de habitantes têm acesso aos serviços de esgotamento sanitário oferecidos pela empresa, que coleta, trata e devolve limpo ao ambiente 65 bilhões de litros de esgoto ao ano. Isso configura a contribuição mais significativa da empresa para a despoluição das praias, do mar e dos mananciais no Espírito Santo.

Fonte: Tempo novo