Não basta ter tecnologia, é preciso fazer a prevenção funcionar.

Não basta ter tecnologia, é preciso fazer a prevenção funcionar.

Por Vanessa Freitas – Liderança em Foco | Portal Foco no ES

Nunca tivemos tanta tecnologia disponível dentro das empresas. Inteligência artificial, automação, sensores, sistemas de monitoramento, máquinas modernas e dados em tempo real vêm transformando a maneira como produzimos, transportamos, armazenamos, construímos, atendemos e tomamos decisões. Seja na indústria, logística, construção civil, hospitais, transporte, agronegócio, comércio e em tantas outras atividades, esses avanços também chegaram à segurança. Hoje temos recursos capazes de monitorar máquinas e ambientes, identificar condições de risco, controlar acessos, acompanhar movimentações e reduzir a exposição das pessoas a determinadas atividades, porém, mesmo com tudo isso, trabalhadores continuam se acidentando, ficando incapacitados e perdendo a vida durante o exercício de suas funções.

Em 2024, o Brasil registrou 834.048 acidentes de trabalho, um aumento de 10,56% em relação a 2023, segundo dados da Previdência Social. Desse total, 544.495 foram acidentes típicos, diretamente relacionados ao exercício da atividade profissional. Ferimentos de punho e mão, por exemplo, somaram 78.557 ocorrências, sendo 75.248 classificadas como acidentes típicos. São números que precisam sair das planilhas e entrar nas conversas de quem toma decisões dentro das empresas, principalmente porque vivemos um momento em que se investe tanto em eficiência, produtividade e inovação. Não faz sentido avançarmos tanto na tecnologia e continuarmos convivendo com riscos que poderiam ser reduzidos com manutenção, treinamento, equipamentos adequados e uma gestão mais atenta à segurança.

A tecnologia tem um papel importante nisso, porque uma máquina moderna pode reduzir significativamente a exposição ao risco, sensores podem identificar situações perigosas e sistemas de monitoramento podem fornecer informações importantes para uma tomada de decisão mais segura, o problema é acreditar que comprar esses recursos resolve a questão. Se a máquina não passar por manutenção adequada ela falha, um sensor sem calibração pode deixar de cumprir sua função, um dispositivo de segurança pode ser desativado para acelerar uma operação e um equipamento de proteção pode estar disponível sem ser adequado ao risco ou utilizado corretamente. A empresa pode ter procedimentos muito bem escritos e, quando olhamos para a rotina, perceber que o trabalho acontece de outra maneira.

Sempre que penso nisso, lembro dos vídeos do Lito Sousa, do canal Aviões e Músicas, que acompanho há algum tempo. Quando ele explica acidentes aéreos, dificilmente está ligado à uma única causa, existe uma sequência de fatores, decisões, condições e sinais que vão se conectando até que as barreiras de segurança deixam de funcionar. Gosto desse olhar porque ele faz sentido para todas as áreas. Quando acontece um acidente, é comum atribuir à “falha humana”. Sim, pessoas erram, mas parar a análise no erro de quem estava executando a atividade pode esconder tudo o que aconteceu antes. Esse trabalhador recebeu treinamento suficiente? Compreendia o risco? A máquina estava em condições adequadas? A manutenção estava em dia? O EPI era correto para aquela atividade e estava disponível? Havia pressão para terminar o serviço mais rápido? Aquela forma de trabalhar já vinha sendo repetida há tanto tempo que ninguém mais percebia o risco?

Quando começamos a investigar percebemos que a falha de uma pessoa pode ser apenas o último elo de uma sequência que começou muito antes, por isso, segurança também passa pela forma como as pessoas aprendem. Em atividades que envolvem risco, apresentar um procedimento, exibir um vídeo, entregar um manual e colher uma assinatura não significa que alguém esteja preparado para agir diante de uma situação real. O trabalhador precisa compreender o risco, reconhecer sinais, perceber mudanças no ambiente e saber como agir quando alguma coisa sai do previsto. Também precisa saber que pode comunicar uma condição insegura ou interromper uma atividade sem ser visto como alguém que está atrapalhando a operação. Isso exige treinamento, prática, acompanhamento e reciclagem, mas exige sobretudo coerência entre aquilo que a empresa diz e aquilo que a liderança faz todos os dias e essa coerência é colocada à prova quando a prevenção interfere na operação. Uma máquina precisa parar para manutenção, uma entrega está atrasada, uma obra precisa cumprir o cronograma, um veículo apresenta um problema antes de sair ou interromper determinada atividade significa comprometer o resultado daquele turno. São situações como essas que o trabalhador entende qual é a prioridade real da empresa.

Se comunicar um risco gera desconforto, se parar uma operação insegura é tratado como atraso ou se a manutenção pode esperar porque a produção não pode parar, a mensagem fica clara sem que ninguém precise dizê-la.

Também precisamos falar sobre o valor daquele profissional, porque empresas investem tempo e dinheiro para selecionar, contratar e desenvolver pessoas, formam equipes de alta performance e dependem do conhecimento de trabalhadores que conhecem a fundo a operação e quando um profissional se acidenta, a empresa não perde apenas horas de trabalho., perde alguém que levou anos para desenvolver determinadas competências, conhece processos, equipamentos, clientes e detalhes que muitas vezes não estão registrados em nenhum manual e o impacto não termina aí, pois um acidente grave pode gerar afastamentos, interrupções da operação, necessidade de substituição e treinamento de profissionais, investigações, despesas, indenizações e responsabilizações, dependendo das circunstâncias. Também pode comprometer indicadores de segurança, afetar a reputação da empresa e, em atividades nas quais clientes e contratantes estabelecem requisitos de saúde e segurança, colocar relações comerciais e contratos em risco.

Cuidar da segurança, portanto, também é uma decisão de gestão. Estamos falando de pessoas, mas também de continuidade da operação, conhecimento, reputação e sustentabilidade do negócio e pra mim, esse assunto nunca foi apenas profissional, perdi meu pai em um acidente de trabalho e, quando encontro números sobre trabalhadores que morreram exercendo suas funções, não consigo enxergar somente estatísticas, cada registro representa alguém que saiu de casa para trabalhar e pessoas que esperavam que ele voltasse e quando isso não acontece, o acidente não termina com a paralisação da operação, com a investigação das causas ou com a retomada das atividades da empresa, ele continua na vida da família que ficou.

Essa experiência reforçou um compromisso que carrego também no meu trabalho, por meio da consultoria, dos treinamentos e das palestras sobre saúde e segurança, procuro contribuir para que a prevenção seja compreendida por quem está na operação, por quem lidera e por quem toma decisões. Falar de segurança não pode se limitar a normas e procedimentos, precisamos desenvolver percepção de risco, questionar práticas que foram normalizadas e lembrar que a responsabilidade não está somente nas mãos de quem executa a atividade, mas também nas decisões de quem compra um equipamento, aprova uma manutenção, organiza uma escala, estabelece uma meta, conduz um treinamento, acompanha uma equipe e decide se uma operação continua ou para diante de um risco.

Os processos mudam, novas tecnologias chegam e as empresas ficam mais eficientes, mas algumas ausências permanecem. Se conseguimos investir em inteligência artificial, automação, produtividade e eficiência, precisamos colocar o mesmo cuidado na manutenção, no treinamento, nos equipamentos de proteção, na aprendizagem e nas condições em que as pessoas trabalham, porque a tecnologia só reduz riscos e protege vidas, se fizer parte de um sistema em que cada barreira de proteção seja levada a sério.

Nenhum ganho de produtividade compensa a perda de uma vida e nenhum avanço tecnológico faz sentido se as pessoas que fazem a empresa acontecer não puderem voltar para casa em segurança. Respeitar essa escolha não é apenas cumprir a legislação, é uma demonstração concreta da cultura que a empresa afirma defender.

Não basta ter tecnologia, é preciso fazer a prevenção funcionar.

Se esse texto fez você pensar em alguma empresa, liderança ou profissional, faça este artigo chegar a quem precisa. Segurança também começa quando uma conversa importante não é adiada.

Com alerta e saudade eterna,

Vanessa Freitas

Consultora de  Carreira e  Cultura Organizacional | Fundadora da Avalon Consultoria

Colunista da Liderança em Foco – Portal Foco no ES

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