Felicidade, presença e saúde mental: quando o corpo está aqui, mas a mente não
Por Vanessa Freitas – Liderança em Foco | Portal Foco no ES
Recentemente, assisti a uma palestra de Fabrício Carpinejar e, entre tantas provocações, uma definição sobre felicidade ficou comigo: a felicidade acontece quando a mente e o corpo estão no mesmo lugar. Durante a palestra, ele nos convidou a pensar em três dos momentos mais felizes das nossas vidas. Faça esse exercício por alguns segundos, pense em três momentos que você guardaria entre os mais felizes da sua história. É muito provável que, em nenhum deles, você estivesse com o celular na mão, respondendo mensagens, verificando e-mails ou pensando no que precisava fazer depois. Você estava ali, por inteiro. Seu corpo e sua mente estavam exatamente onde queriam e precisavam estar.
Saí dessa reflexão pensando no quanto temos feito o movimento contrário dentro das empresas. Uma reunião começa e, poucos minutos depois, alguém pega o celular para resolver uma questão “urgente”. Durante um treinamento, respondemos uma mensagem rapidamente. Em uma conversa com um colaborador, escutamos enquanto acompanhamos uma notificação na tela. Estamos fisicamente em um lugar, mas mentalmente tentando estar em vários outros. Criamos uma rotina em que estar permanentemente disponível passou a ser confundido com produtividade. Responder imediatamente parece demonstrar comprometimento, acompanhar tudo parece significar controle e interromper constantemente aquilo que estamos fazendo virou quase uma característica natural da vida profissional.
Mas será que tudo é realmente urgente?
Essa pergunta merece atenção porque, muitas vezes, a urgência não está necessariamente na quantidade de demandas que recebemos, mas na forma como aprendemos a nos relacionar com elas. Desenvolvemos a sensação de que precisamos responder tudo, acompanhar tudo e resolver tudo no momento em que aparece. Uma mensagem chega e imediatamente deslocamos nossa atenção, um e-mail entra e sentimos necessidade de verificar, o celular vibra e, quase automaticamente, abandonamos por alguns segundos aquilo que havíamos escolhido fazer.
O problema é que esses segundos se acumulam. A atenção fragmentada exige do cérebro sucessivas mudanças de foco e, ao final do dia, podemos ter a sensação de que trabalhamos muito sem necessariamente termos estado verdadeiramente presentes em quase nada. Participamos da reunião pensando no e-mail, respondemos ao e-mail lembrando da próxima entrega e chegamos em casa ainda mentalmente conectados ao que ficou pendente no trabalho e talvez por isso a reflexão de Carpinejar tenha me provocado tanto. Se alguns dos nossos momentos mais felizes aconteceram justamente quando corpo e mente estavam juntos, precisamos nos perguntar o que acontece quando passamos grande parte dos nossos dias vivendo separados de nós mesmos.
E essa não é apenas uma responsabilidade individual é também uma questão de cultura organizacional e liderança. Empresas criam comportamentos por aquilo que valorizam, toleram e repetem. Se uma liderança envia mensagens a qualquer horário e espera respostas imediatas, se reuniões acontecem enquanto todos continuam resolvendo outras demandas ou se a agenda não reserva espaço para concentração, estamos ensinando as pessoas que presença é menos importante do que disponibilidade permanente.
Falar de saúde mental nas empresas, portanto, não pode se limitar às grandes ações, campanhas ou programas de bem-estar. Também precisamos olhar para a forma como organizamos o trabalho, conduzimos reuniões, estabelecemos prioridades, usamos a tecnologia e definimos o que realmente merece ser tratado como urgente.
Precisamos recuperar o direito de fazer uma coisa de cada vez. Se estamos em uma reunião, estar na reunião. Se estamos ouvindo alguém, realmente ouvir. Se estamos em um treinamento, permitir que aquele seja um espaço de aprendizagem. E, quando estivermos com nossa família, tentar não permanecer mentalmente no escritório. A proposta não é ignorar responsabilidades ou romantizar uma rotina sem pressão, pois empresas possuem metas, clientes, imprevistos e problemas que precisam ser resolvidos. A questão é aprender a distinguir aquilo que exige resposta imediata daquilo que apenas despertou em nós a sensação de urgência, porque em um mundo que disputa nossa atenção o tempo inteiro, talvez estar presente tenha se tornado uma das formas mais importantes de cuidado.
E, se felicidade é quando corpo e mente conseguem estar no mesmo lugar, talvez seja hora de perguntarmos não apenas se as pessoas estão felizes no trabalho, mas quantas vezes, durante o dia, nós realmente permitimos que elas estejam inteiras onde estão.
Com foco e presença,
Vanessa Freitas
Mentora em Liderança, Carreira e Gestão | Fundadora da Avalon Consultoria
Colunista da Liderança em Foco – Portal Foco no ES
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