Pimenta-do-reino vira cocada e cria nova fonte de renda para produtores de Jaguaré
Receita criada por produtora rural une doce e especiaria cultivada na propriedade e ajuda a agregar valor à produção do campo
Uma combinação pouco convencional está conquistando espaço em Jaguaré, no Norte do Espírito Santo: cocada com pimenta-do-reino. A receita foi criada pela produtora rural Poliane Silva como uma forma de diversificar a produção da propriedade e transformar a especiaria cultivada no local em um novo produto comercial.
A ideia surgiu depois que Poliane, que trabalhou por 18 anos como funcionária pública, passou a dedicar mais tempo às atividades rurais ao lado do companheiro. Ela já produzia cocada com café e decidiu testar uma nova receita usando a pimenta-do-reino.
O principal desafio foi encontrar a proporção ideal entre o sabor adocicado da cocada e a característica marcante da pimenta. Depois de várias tentativas, a produtora chegou a uma receita em que o sabor picante aparece gradualmente, sem dominar o doce.
A novidade começou a chamar a atenção dos consumidores e atualmente é vendida em feiras, eventos e também por encomendas. Para Poliane, transformar uma matéria-prima da própria propriedade em um alimento diferente representa uma maneira de aumentar as possibilidades de geração de renda no campo.
A iniciativa acompanha uma realidade importante da agricultura de Jaguaré. O município é o segundo maior produtor de pimenta-do-reino do Espírito Santo, atrás apenas de São Mateus. Em 2025, foram produzidas aproximadamente 10 mil toneladas da especiaria. Para este ano, a expectativa é alcançar 15 mil toneladas.
O Espírito Santo, por sua vez, ocupa a liderança nacional na produção de pimenta-do-reino. No Norte capixaba, as condições de solo e clima favorecem o cultivo, que se tornou uma importante alternativa para diversificar as propriedades rurais.
Na propriedade do produtor Jarbas Nicoli, a cultura é mantida pela família desde a década de 1970. Atualmente, são cerca de 80 hectares destinados ao cultivo. Segundo ele, a pimenta ajuda a complementar a renda obtida com o café e permite distribuir melhor as receitas ao longo do ano.
Outro fator considerado positivo é a possibilidade de armazenar a produção e aguardar períodos mais favoráveis para a comercialização. A lavoura também pode ter uma colheita principal e outras duas menores durante o ano, contribuindo para uma entrada de recursos em diferentes períodos.
Apesar da importância econômica, o cultivo enfrenta obstáculos. Doenças que provocam a morte das plantas exigem monitoramento e renovação das áreas afetadas. Jarbas afirma que utiliza métodos de controle biológico para reduzir as perdas e, quando necessário, substitui áreas comprometidas por novas plantações.
A falta de trabalhadores durante a colheita também é um dos desafios. Produtores têm recorrido a parcerias agrícolas e procuram alternativas tecnológicas para diminuir a dependência do trabalho manual.
O clima é outro fator de preocupação. Em 2023, o excesso de chuvas provocou prejuízos em lavouras da região. Temperaturas muito elevadas também podem comprometer a produção, especialmente durante a fase de floração. De acordo com a avaliação apresentada pelo setor agrícola do município, temperaturas acima de 35°C podem aumentar os riscos de perdas.
Mesmo diante dos desafios, a rentabilidade da cultura tem estimulado o interesse dos produtores. Para o secretário de Agricultura de Jaguaré, Jefferson Reinaldo de Oliveira, a pimenta exerce um papel estratégico na diversificação das propriedades e ajuda a movimentar a economia local, especialmente depois do período de colheita do café.
Além de comercializar a especiaria in natura, experiências como a cocada criada por Poliane mostram que o produto também pode ganhar valor por meio da agroindustrialização. A transformação da pimenta em alimentos diferenciados amplia as possibilidades de mercado e cria novas oportunidades de renda para famílias que vivem da agricultura.
Assim, entre a produção tradicional e a criação de novos produtos, a pimenta-do-reino vem ocupando um espaço cada vez mais relevante no campo capixaba, ajudando a diversificar a renda e movimentar a economia do Norte do Espírito Santo.

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