Liderança da Aprendizagem na Era da Inteligência Artificial
A tecnologia evolui rapidamente e preparar pessoas para aprender continua sendo a principal responsabilidade das organizações. Por Vanessa Freitas – Liderança em Foco | Portal Foco no ES
O Fórum Econômico Mundial publicou recentemente o relatório Shaping the Future of Learning: Education Readiness for the Age of AI. Embora tenha sido elaborado com foco na educação, o documento traz reflexões que interessam diretamente às empresas. Afinal, aprender deixou de ser uma responsabilidade exclusiva das escolas e tornou-se uma condição para a competitividade das organizações.
A Inteligência Artificial já ocupa espaço nas rotinas de trabalho apoiando análises, organizando informações, produzindo relatórios, estruturando apresentações, respondendo dúvidas e automatizando tarefas que antes consumiam horas. É uma transformação irreversível e, sob muitos aspectos, extremamente positiva. Destaco que o problema não está na tecnologia, mas no fato de imaginar que investir em Inteligência Artificial seja suficiente para preparar uma organização para o futuro.
O relatório chama atenção para um movimento que já acontece diante dos nossos olhos: a adoção da IA crescendo em uma velocidade muito superior à capacidade das instituições de adaptar seus processos, suas práticas e seus modelos de aprendizagem. Pessoas incorporam novas ferramentas diariamente, enquanto escolas, universidades e empresas ainda procuram entender quais competências precisarão desenvolver daqui para frente. E esse descompasso merece atenção, porque durante muito tempo, aprender significava pesquisar, comparar informações, construir argumentos e chegar às próprias conclusões, porém hoje, boa parte desse percurso pode ser encurtada por uma resposta gerada em poucos segundos.
Isso pode parecer um aumento na produtividade, mas essa ação também pode mudar a forma como pensamos.
Entre os pontos apresentados pelo relatório, o que merece uma atenção das lideranças é o chamado cognitive offloading, expressão utilizada para descrever a transferência de parte do esforço cognitivo para a tecnologia. Em outras palavras, deixamos que a Inteligência Artificial organize ideias, sintetize conteúdos e desenvolva raciocínios que antes exigiam reflexão humana e essa mudança parece sutil, mas produz efeitos importantes. Porque o cérebro não aprende apenas pelo acesso à informação, sobretudo quando precisa interpretar, estabelecer relações, testar hipóteses, lidar com dúvidas e encontrar soluções e é esse processo que fortalece funções executivas fundamentais, como atenção, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva, dentre outras habilidades que sustentam o pensamento crítico, a criatividade e a tomada de decisão.
Quando eliminamos o esforço, reduzimos também parte da aprendizagem.
Isso não significa que a Inteligência Artificial não deva ser utilizada ou vista com desconfiança. O próprio Fórum Econômico Mundial reconhece seu potencial para personalizar o ensino, ampliar o acesso ao conhecimento, reduzir tarefas administrativas, oferecer feedback mais rápido e apoiar professores e instituições. O documento deixa claro, porém, que esses benefícios dependem de condições que precisam ser construídas. Governança, ética, formação contínua, alfabetização digital, proteção de dados e ambientes que continuem estimulando o pensamento são fatores indispensáveis para que a tecnologia produza resultados consistentes e essa lógica vale igualmente para o ambiente corporativo.
Empresas têm investido milhões em novas plataformas, assistentes inteligentes e automação, mas poucas discutem, com a mesma profundidade, como desenvolver profissionais capazes de utilizar essas ferramentas com discernimento. Saber escrever um bom comando para uma Inteligência Artificial é importante, porém como avaliar criticamente a resposta recebida será ainda mais, porque nenhum algoritmo assume responsabilidade por uma decisão equivocada, nenhuma ferramenta responde pelas consequências éticas de uma escolha, nenhuma plataforma substitui a experiência, o repertório e o julgamento construídos ao longo da trajetória profissional, e é por isso que a aprendizagem passa a ocupar um lugar estratégico dentro das organizações.
A liderança deixa de ser apenas responsável por distribuir tarefas, acompanhar indicadores e entregar resultados e passa a criar ambientes onde as pessoas continuam aprendendo, questionando, experimentando e desenvolvendo autonomia intelectual, mesmo cercadas por tecnologias capazes de oferecer respostas imediatas.
O relatório encerra com uma reflexão que merece ser ampliada para além das escolas: “A questão não é se a Inteligência Artificial moldará os sistemas educacionais, mas se os sistemas educacionais conseguirão moldar a forma como a Inteligência Artificial será utilizada.”
Faço apenas uma adaptação para o universo das organizações: A Inteligência Artificial continuará evoluindo e fazendo parte da rotina de profissionais e estudantes, será que as empresas conseguirão desenvolver pessoas capazes de utilizá-la sem abrir mão daquilo que sempre sustentou a inovação: curiosidade, pensamento crítico, discernimento, responsabilidade e disposição para aprender continuamente?
A tecnologia continuará sendo uma vantagem competitiva assim como a aprendizagem continuará sendo uma vantagem decisiva.
Com fé na ciência e nas pessoas,
Vanessa Freitas
Mentora em Liderança, Carreira e Gestão | Fundadora da Avalon Consultoria
Colunista da Liderança em Foco – Portal Foco no ES
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Referência: World Economic Forum. Shaping the Future of Learning: Education Readiness for the Age of AI. Insight Report. Geneva: World Economic Forum, junho de 2026.

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