Agricultores poderão ser remunerados por preservação ambiental em sistema de crédito de carbono
Imagine quando eu envelhecer e esse dinheiro pingando todo ano na conta? Vai trazer uma tranquilidade para mim e meus filhos. É como um 13º da propriedade”, se empolga Wagner Canal, 43. Ele é um dos produtores rurais que vão vender crédito de carbono, e fazer renda com a preservação ambiental no Espírito Santo — e não é o único.
O projeto Arranjos Produtivos, da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, em parceria com a Acebio — associação sem fins lucrativos —, estima que cerca de 1.300 produtores no Estado devem aderir até o dia 8, quando termina o prazo para inscrição.
A iniciativa funciona em etapas. Nesta primeira fase, os agricultores assinam uma carta de intenção. Após a validação da documentação, a Acebio inicia a execução do projeto, que inclui certificação dos créditos, monitoramento, entre outros passos.
Os contratos são de longo prazo, chegando a até 40 anos. As primeiras remunerações podem ocorrer a partir de cerca de 12 meses, mas também podem levar mais tempo, dependendo do processo de auditoria, da produção efetiva dos créditos e das condições de mercado.
Os produtores recebem até 45% do valor obtido com a venda dos créditos. O restante é destinado a custos como certificação, gestão e operação do projeto. Por isso, não há investimento inicial por parte do agricultor, mas há compromissos, como a manutenção da área preservada ao longo do contrato.
Segundo Bruna Souto, especialista da Acebio, embora existam iniciativas semelhantes no País, o diferencial do programa é integrar produção de alimentos, conservação ambiental e melhoria da qualidade de vida no campo.
“Destaca-se a criação de uma nova fonte de renda, que passa a existir a partir da valorização do que o produtor já faz — produzir alimentos, conservar o solo, a água e manter o carbono estocado nas plantas e no solo”, diz.
No caso de Wagner, o projeto se encaixa na história da família. Ele conta que os pais sempre priorizaram a preservação ambiental, o que fez do Sítio Santa Rita, em São Domingos do Norte, uma referência em reflorestamento — com mais de 200 espécies nativas e cerca de 25% da área recuperada.
Segundo ele, em 1996, a terra tinha alguns poucos arbustos e muito abandono. Hoje, além da área preservada, tem vários cultivos, como café e banana. “Quando você ganha dinheiro vendendo uma caixa de banana, você entrega um produto. No crédito de carbono, estamos entregando anos de meio ambiente preservado”.
Especialistas veem inviabilidade
O projeto desenvolvido pela Assembleia Legislativa tornou viável a entrada de produtores rurais no mercado de crédito de carbono, com possibilidade de geração de renda extra. Ainda assim, especialistas afirmam que, para a maioria dos agricultores familiares, a participação individual segue difícil.
“Hoje é inviável para a grande maioria dos produtores”, afirma Murilo Pedroni, engenheiro agrônomo e gerente técnico do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-ES).
Segundo ele, cerca de 90% dos produtores no Estado são agricultores familiares, com pequenas propriedades e diversas obrigações legais. “As propriedades rurais já precisam cumprir várias exigências ambientais. Incluir mais um encargo, com uma metodologia cara e com os preços atuais do mercado, torna o processo inviável”, afirma.
Uma das alternativas apontadas é a atuação coletiva, por meio de cooperativas e associações. De acordo com Célia Perin, gestora do Sebrae Lab ES, esse é um dos caminhos para viabilizar uma participação mais segura. Ela também recomenda buscar orientação técnica e trabalhar com instituições confiáveis. “É preciso ficar atento, porque existem riscos, apesar do potencial”.
Entre os principais pontos de atenção estão contratos pouco transparentes e variações nos preços. “É importante pesquisar bastante antes de entrar”, diz.
O Sebrae, segundo ela, apoia iniciativas que transformam práticas sustentáveis em créditos de carbono rastreáveis, por vários meios como diagnósticos, capacitações e orientações técnicas.
“Avaliamos o mercado de carbono como uma oportunidade complementar de renda, e não como substituto da produção agropecuária”, ressalta.
É exatamente como renda adicional que o produtor Douglas Gasparetto vê o crédito de carbono. Consultor técnico do projeto Arranjos Produtivos, ele também aderiu à iniciativa. Ao lado da esposa, administra a propriedade MF Frutos da Terra, em Conceição do Castelo, onde cultiva café, tangerina e limão.
“Produzimos várias culturas. O carbono vai entrar como uma renda adicional”.
Douglas mantém uma Área de Preservação Permanente (APP) ao redor de uma nascente na propriedade. “É importante, mas muitos produtores ainda veem como terra parada. Com o carbono, conseguimos dar valor a isso. Vai ajudar a custear o manejo que já fazemos”, completa.
Entenda
O que é crédito de carbono ?
É um certificado que representa a redução ou remoção de uma tonelada de dióxido de carbono ou outros gases do efeito estufa na atmosfera. Na prática, funciona como uma “moeda ambiental” usada para compensar emissões que causam o aquecimento global.
Quem compra?
Empresas, bancos, organizações e até países compram créditos para compensar emissões ou cumprir metas de sustentabilidade, principalmente quando reduzir diretamente é mais difícil ou caro.
Qual o preço?
O valor não é fixo, já que o crédito de carbono funciona como uma commodity ambiental. Assim como produtos agrícolas — como café ou cacau —, o preço varia conforme o mercado internacional, a demanda e a qualidade do projeto.
No mercado voluntário, especialistas apontam que os créditos têm sido negociados, nos últimos anos, em uma faixa aproximada entre US$ 7 e US$ 24 por tonelada (cerca de R$ 35 a R$ 120).
Como vende?
O processo é complexo e envolve várias etapas, como elaboração do projeto ambiental, auditoria da propriedade, certificação internacional e monitoramento contínuo. Por isso, tende a ser caro. Projetos coletivos como o do Arranjos Produtivos e da Acebio ajudam a viabilizar a participação de pequenos produtores.
O que pode produzir crédito de carbono na propriedade?
Podem ser produzidos a partir de diferentes tipos de projetos. Alguns exemplos são reflorestamento, energia renovável, além de técnicas agrícolas sustentáveis — como plantio direto, rotação de culturas — entre outros.
Todo projeto produz o mesmo crédito?
Não. Créditos de origem florestal, por exemplo, tendem a ter maior valor de mercado em comparação a projetos industriais, devido ao potencial de conservação ambiental associado.
Benefícios adicionais como conservação da biodiversidade e impacto social nas comunidades locais também geram maior valor.
Fonte : Tribuna Online

Jornalista e corretora ortográfica. Atua na revisão, padronização e produção de conteúdo jornalístico, com experiência em rede de notícias e assessoria de imprensa, assegurando clareza, precisão e credibilidade da informação.




