Arthur Arnold inaugura primeira exposição individual no Espírito Santo com “Banquete para as multidões”

Arthur Arnold inaugura primeira exposição individual no Espírito Santo com “Banquete para as multidões”

A Galeria Matias Brotas, em Vitória, abre suas portas no dia 26 de agosto para receber a primeira exposição individual do artista carioca Arthur Arnold no Espírito Santo. Intitulada “Banquete para as multidões”, a mostra reúne um conjunto inédito de trabalhos que deslocam os limites da pintura tradicional, propondo ao público capixaba uma experiência estética marcada pela tensão entre matéria e transparência, peso e leveza, pedra e pão.

A abertura está programada para ocorrer das 17h às 21h,

em clima de celebração. Mais do que uma estreia, a apresentação marca a consolidação da parceria entre Arnold e a Galeria Matias Brotas, relação que vem sendo construída nos últimos cinco anos. Nesse período, o artista participou de coletivas, feiras e do Clube do Colecionador, projeto da galeria que o aproximou do público local. Agora, com a individual, ele afirma o vínculo em definitivo, sendo representado de forma exclusiva no Brasil pelo espaço capixaba.

Pintura expandida e matéria bruta

Na série apresentada em Vitória, Arthur Arnold troca os meios clássicos da pintura por escolhas ousadas. Em vez da tradicional tinta a óleo ou acrílica, utiliza argamassa pigmentada; no lugar da tela de linho, adota a talagarça, tecido associado à tapeçaria, cuja trama aberta permite que a luz atravesse a superfície e revele chassi e parede. O resultado é uma pintura que se aproxima da escultura, sem abandonar a dimensão poética do plano pictórico.

Entre o urbano e o íntimo

Outro aspecto ressaltado na exposição é o contraste entre a escala coletiva e a dimensão íntima. A densidade das multidões, evocados pela materialidade quase arquitetônica das telas, encontra a intimidade dos banquetes familiares, que se insinuam na metáfora do pão e na ideia de partilha. O público é convidado a circular entre as obras, aproximando-se para ver a textura áspera da argamassa e afastando-se para captar a imagem mais ampla, em constante oscilação perceptiva.

Esse jogo entre urbano e doméstico, dureza e afeto, não é fortuito. Ele responde a uma trajetória artística em que Arnold constantemente revisita o tema da coletividade. Em exposições anteriores, como Massas (2018) e Em meio à multidão me perdi em mim (2019), o artista explorou o corpo coletivo, as aglomerações e os fluxos humanos. Agora, em Vitória, ele acrescenta ao debate o gesto simbólico da partilha, transformando a pedra em pão.

A pintura é um meio super vivo e isso vemos em museus, galerias, feiras de arte e muitos outros lugares.

Um percurso premiado

Nascido no Rio de Janeiro em 1984, Arthur Arnold é formado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e também estudou na Universidade Bauhaus de Weimar, na Alemanha. Sua trajetória reúne prêmios de peso, como o Concurso de Arte Contemporânea do Itamaraty (2013) e o Arte Pará 35 (2016), além de residências artísticas dentro e fora do Brasil

 

Sua obra já ocupou espaços de relevância no circuito de arte, como o Centro Cultural da Justiça Federal (RJ), o espaço Saracura (RJ) e a Galeria Um Zero Três (SP), além de integrar acervos institucionais importantes, entre eles o do Museu de Arte do Rio (MAR), o Itamaraty e a Universidade Cândido Mendes.

Ao longo dessa trajetória, Arnold desenvolveu uma linguagem própria, marcada pela recusa em se limitar a técnicas tradicionais. Sua obra dialoga com questões políticas, sociais e simbólicas, mas sempre através da materialidade da pintura, expandindo suas fronteiras.

Estreia capixaba

Para o artista, estrear em Vitória tem um sentido particular. Apesar da relação próxima com a Galeria Matias Brotas, esta é a primeira vez que ele visita o Espírito Santo para acompanhar uma exposição. A individual, portanto, é também um gesto de aproximação, quase uma celebração de pertencimento.

Essa estreia capixaba reforça a posição da galeria como um espaço que busca não apenas apresentar artistas, mas construir narrativas consistentes ao longo do tempo, apostando em trajetórias e consolidando vínculos entre criadores e público. Ao trazer Arnold para sua primeira individual no Estado, a Matias Brotas reafirma sua vocação em apresentar ao público local produções que dialogam com a contemporaneidade e suas questões mais urgentes.

Banquete para os olhos

Mais do que uma exposição, “Banquete para as multidões” se propõe como uma experiência de partilha simbólica. A argamassa, pesada e pedregosa, ganha novas camadas de significado ao se tornar pão; a talagarça, leve e translúcida, revela mais do que esconde. O público capixaba é convidado a saborear esse banquete de imagens, que oscila entre a aspereza e a delicadeza, a opacidade e a luz.

Em grande estilo, Arthur Arnold inaugura sua presença no Espírito Santo, oferecendo ao público não apenas um conjunto de obras inéditas, mas uma reflexão poética sobre coletividade, intimidade e o papel da arte como gesto de transformação simbólica.

Serviço

Exposição: Banquete para as multidões – Arthur Arnold
Abertura: 26 de agosto de 2025 (terça-feira), das 17h às 21h
Local: Galeria Matias Brotas – Av. Carlos Gomes de Sá, 130, Mata da Praia, Vitória – ES
Visitação: de 27 de agosto a 30 de setembro de 2025, de segunda a sexta, das 10h às 18h
Entrada franca

                                                                   Entrevistas

 

 Lara Brotas (sócia-fundadora da Matias Brotas)

  1. A Matias Brotas vem se consolidando como um espaço fundamental no cenário artístico capixaba. Como você avalia a importância de trazer a primeira individual de Arthur Arnold para Vitória?

Receber a primeira individual de Arthur Arnold em Vitória é um marco importante para a Matias Brotas, não apenas pelo ineditismo, mas pela potência desse encontro entre um artista com trajetória sólida no cenário nacional e o nosso compromisso curatorial com a construção conjunta de percursos consistentes.

O Arthur já participou de exposições em instituições relevantes como o Sesc Santana, além de ter obras em coleções como o MAR, o Itamaraty e a Universidade Cândido Mendes. Ele passou por residências no Brasil e no exterior, e tem um trabalho que vem se destacando por sua pesquisa formal e política da imagem.

Trazer essa individual para Vitória, com curadoria e texto de Maykson Cardoso, é também uma afirmação do papel que a Matias Brotas busca ocupar: o de uma galeria que não apenas representa, mas acompanha, provoca e constrói junto com os artistas. Essa exposição é resultado de um processo cuidadoso, que reflete o amadurecimento da pesquisa do artista e a abertura da cidade para experiências artísticas mais densas e singulares.

  1. Arnold já havia participado do Clube do Colecionador da galeria antes desta individual. Como você percebe a evolução dessa parceria até chegar a este momento?

A relação com o Arthur se construiu como se constrói o olhar: com tempo, presença e entrega. Assim como a aproximação com a arte exige amadurecimento, a relação entre artista e galeria também se dá nessa ordem uma construção paciente, feita de trocas e confiança mútua.

Ele começou conosco em um projeto pontual, participando do Clube do Colecionador, e desde então esse vínculo foi se fortalecendo. A Matias Brotas tem como característica manter relações sólidas e duradouras com os artistas que acompanha, investindo não só em exposições, mas em feiras e em projetos institucionais.

Chegar à sua primeira individual conosco é fruto dessa trajetória compartilhada. Um passo natural, mas também simbólico, que celebra o compromisso da galeria com o acompanhamento profundo dos artistas que representa.

  1. A galeria tem buscado inserir seus artistas em feiras, instituições e coleções relevantes. Qual é o papel da Matias Brotas na construção e na consolidação de trajetórias artísticas no Brasil?

O papel da Matias Brotas vai muito além de apresentar exposições ao público. Existe um trabalho contínuo e muitas vezes invisível, que envolve a formação de colecionadores, o amadurecimento do olhar do público e, principalmente, o acompanhamento atento da trajetória dos artistas que representamos.

A galeria tem um compromisso profundo com a curadoria e com a inserção dos artistas em contextos relevantes, seja em feiras, instituições ou coleções. Cada movimento nesse sentido é pensado a partir de uma escuta cuidadosa e de um entendimento claro do lugar que aquele artista ocupa no cenário da arte contemporânea.

Essa atuação estratégica e afetiva é parte do que nos define. Nosso trabalho é, ao mesmo tempo, de mediação, construção de pontes e sustentação de percursos artísticos que merecem permanência, visibilidade e consistência.

  1. O público capixaba tem respondido de forma cada vez mais interessada às exposições da galeria. Que expectativas você tem para a recepção de “Banquete para as multidões”?

Temos percebido um interesse cada vez maior do público capixaba pelas exposições da galeria tanto como experiência estética e formativa quanto como investimento. A arte também vem sendo compreendida como um ativo, e isso se reflete na ampliação do mercado local e na qualificação do olhar do nosso público e dos nossos colecionadores.

No caso de Banquete para as Multidões, é interessante notar que, mesmo antes de realizar sua primeira individual no Espírito Santo, o Arthur já tinha obras em coleções no estado. Isso revela um vínculo construído ao longo do tempo e reforça o amadurecimento desse público, que acompanha e investe em sua produção com consistência.

A Matias Brotas também tem se transformado nesse processo. Hoje atuamos não só como um espaço expositivo, mas como um equipamento cultural conectado com a cidade e com o circuito nacional e internacional. Nosso faturamento praticamente dobrou em relação aos últimos ciclos, especialmente com a expansão para o mercado externo, reflexo do crescimento da galeria e da solidez das trajetórias que representamos.

  1. A Galeria Matias Brotas completa em 2025 uma trajetória marcada por inovação e acolhimento à arte contemporânea. Quais são os próximos passos e desafios que você vislumbra para a galeria nos próximos anos?

A Matias Brotas completa, em 2026, duas décadas de atuação comprometida com a arte contemporânea e seguimos com o mesmo impulso de origem: a arte como vetor de transformação social, cultural e pessoal.

Nos próximos anos, o maior desafio é seguir inovando sem abrir mão da escuta e da consistência. A galeria tem se consolidado como um centro de formação não apenas de público para a arte contemporânea, mas também de indivíduos atentos ao seu tempo, abertos ao sensível e à coletividade.

Projetos de arte-educação, cursos, vivências, viagens imersivas e programas curatoriais seguem como pilares da nossa atuação formativa. São iniciativas que levam a presença da galeria para outros territórios, físicos e simbólicos, aproximando a arte do cotidiano e fortalecendo seu papel na vida das pessoas. O objetivo é manter viva uma relação sensível e transformadora entre arte e sociedade, ampliando seus modos de experiência e significação.

 Arthur Arnold

1.Sua formação inclui uma passagem pela Universidade Bauhaus em Weimar. De que maneira essa experiência internacional influenciou sua pesquisa artística atual?

Difícil dizer. Isso foi há muito tempo, em 2007-2008. Eu fui pelo programa de intercâmbio da UFMG. Na época cursava Artes Visuais em Belo Horizonte. Foi um ano muito interessante, abriu várias perspectivas. Tive aula com professores que me influenciaram e mudaram a forma como entendo a arte. Pude visitar muitos museus e coleções maravilhosas. Lembro de ir à Documenta de Kassel. 

Foi  lá também que passei a pintar com mais regularidade, antes me concentrava mais no desenho e na escultura. Fiz grandes amigos, alguns que se tornaram artistas e com quem mantenho contato até hoje.

  1. Suas obras estão em coleções importantes, como o MAR e o Itamaraty. Qual o significado para você de ver seu trabalho integrar acervos institucionais dessa relevância?

Fazer parte de um acervo institucional é importante por diversos motivos.  Porque a obra em questão será preservada. Porque isso traz um certo reconhecimento da crítica especializada. Porque põe a obra em um contexto mais amplo em seu tempo. Porque dá um incentivo na carreira. Porque pode ajudar a divulgar o trabalho. E claro, porque ajuda a financiar a produção, quando há políticas de aquisição, sejam públicas ou privadas. 

  1. A ideia de multidão aparece com frequência em seus títulos e exposições. O que significa para você trabalhar esse conceito e como ele se conecta à sua visão de arte e sociedade?

As multidões apareceram na minha pintura de forma bem natural e gradual ao longo do tempo, por diversos motivos que se cruzaram. Dois quadros que me influenciaram muito são “A Batalha do Avaí” do Pedro Américo e “A Batalha do Guararapes” do Vitor Meirelles. São quadros enormes que estão no Museu Nacional de Belas Artes no Rio. Vi eles quando era criança e aquilo ficou na minha cabeça. São quadros de multidões guerreando. 

Conforme meu trabalho foi se desenvolvendo, fui percebendo que gostava de composições complexas, cheias de elementos. Botava diversas figuras humanas nas telas que criavam narrativas que se intercruzavam. Com o tempo essas composições foram ficando mais cheias e mais cheias, até que entendi que o que me interessava era essa aglomeração de pessoas em uma grande massa que forma uma paisagem humana. 

Sempre me interessei por o que acontece com indivíduos quando estão sob a influência de um grupo e como isso os modifica. Todos nós estamos sujeitos a isso e existem diversas experiências coletivas que podem ser libertadoras, mas outras que podem ser restritivas. Tudo depende. Meu trabalho fala sobre esse estar junto. 

  1. Ao longo da carreira, você transitou por temas ligados ao poder, à política e às massas. Como esses elementos permanecem ou se transformam em sua produção mais recente?

Acho que eles continuam presentes, mas de uma forma mais sutil. Por exemplo, na argamassa em si. É um material popular da construção civil. Ele surgiu no meu trabalho da vontade de ter um material que eu pudesse ser modelado e manipulado quase como se fosse um relevo ou uma escultura. Isso tornou o trabalho tátil para os olhos. Em certa medida o poder, a política também tocam, manipulam e modelam as massas e as formas de viver.  

  1. Em um cenário contemporâneo em que a pintura muitas vezes é posta em questão, como você vê o lugar da pintura hoje e de que forma sua pesquisa busca expandir e atualizar esse campo? 

A pintura foi declarada morta diversas vezes. Há quase uma tradição nisso.  Na Renascença, quando se dominou a perspectiva, depois com a invenção da fotografia, no fim do modernismo e nos anos 90. Em todos esses casos o que aconteceu foi que ela mudou, se tornou algo diferente do que era antes. Ela sempre reflete o tempo em que está inserida. Uma pintura de ontem não vai falar hoje da mesma forma. Por isso ela se renova continuamente. Apesar das questões da pintura serem as mesmas desde sempre, cada época tenta dar soluções novas. Eu trabalho nessa renovação, mesmo que só pra mim, tento sempre fazer pequenas descobertas, seja na abordagem que dou aos temas, nos motivos que encontro para tratá-los, na forma como eu pinto e no uso de materiais incomuns à arte que faço.

Maykson Cardoso (curador)

  1. No texto curatorial, você aponta a metáfora central da transformação da pedra em pão, articulando densidade e leveza, multidão e intimidade. Como essa leitura surgiu a partir do contato com as obras de Arthur Arnold?

Venho acompanhando com muito entusiasmo essa nova fase da produção do Arthur, marcada pela substituição da tinta a óleo pela argamassa em suas pinturas, a partir de 2020. A argamassa, é claro, é um material “estranho” à pintura na tela — embora, evidentemente, como Arthur mesmo nos lembra, já estivesse presente nos afrescos e, por isso, não possamos dizer que seja um material novo para a história da pintura… Mas, na tela, pode imaginar? A tela é, geralmente, feita de tecidos leves, como a lona de algodão ou linho. Então, em primeiro lugar, essa articulação entre densidade e leveza já está informada pelo próprio uso da argamassa densa sobre o tecido leve da tela. A ideia da “transubstanciação” do pão em pedra — esse conceito teológico —, ocorreu-me justamente pela textura arenosa, pedregosa, “pedaçuda” da argamassa quando seca… Estive no ateliê de Arthur em São Paulo no começo desse ano, e acho que essas pinturas, justamente porque, por causa dessa textura, elas também se insinuam para o tato, pedem essa aproximação: você vê de longe e pensa, mas o que é isso? Quando chega perto, vê o acúmulo da argamassa, vê as rachaduras, os grãos de areia… E, óbvio, as pinturas foram feitas para serem vistas a certa distância, é preciso dar alguns passos atrás para ver melhor a composição. Então a ideia da transubstanciação veio, mesmo, desse jogo entre ver, ali, de perto, a coisa como pedra, e, à medida que você se distancia, ver também aquilo ganhando forma… e, bom, nas telas em que Arthur pinta seus banquetes, tudo aquilo tem forma de comida, o pão, de algum modo — o “pão de cada dia” — simboliza tudo aquilo que mata a nossa fome — claro, também a fome “espiritual”.

  1. A exposição propõe um diálogo entre tradição e contemporaneidade, tanto na escolha dos materiais quanto na construção poética. De que maneira você enxerga esse trânsito na pintura de Arnold?

Arthur é daquele tipo de artista — cada vez mais raros! — que realmente tem um domínio sobre a História da Arte e, mais especificamente, da pintura… Aliás, tenho a impressão de que a maioria dos pintores que conheço têm esse traço, muito importante. Ou seja, diferente de outros artistas, não acham que estão inventando a bússola. Isto não que pintores, como Arthur, não tenham uma consciência crítica em relação à tradição na qual seus trabalhos se inscrevem, pelo contrário: buscam, na própria tradição, os meios para desestabilizá-la e  renová-la. Num certo sentido, Arthur tem feito pequenas rupturas com a tradição: substituiu a tinta pela argamassa, a lona de algodão pela talagarça, o pincel pelas colheres de pedreiro e espátulas de confeiteiro. Ao mesmo tempo, os motivos que ele vem pintando são motivos há muito conhecidos pela tradição pictórica ocidental: o motivo das multidões remonta, por exemplo, às cenas bíblicas pintadas por pintores desde, sei lá, o Quattrocento ou o Renascimento, quando houve um boom de encomendas da Igreja Católica a pintores daquele período, justamente como uma estratégia para dar a ver as histórias bíblicas que, muitos, à época, não podiam ler. O motivo do banquete, bom, quantos de nós não temos impregnado em nossas memórias a “Última Ceia” de Da Vince? Eu mesmo cresci com uma cópia enorme desse quadro na casa de minha avó. Ou seja: Arthur adota materiais que não são estranhos à pintura, mas dá a eles um novo uso, gera um deslocamento, e com eles pinta motivos que fazem parte do nosso “inconsciente estético”, permitindo que a gente tenha uma outra forma de olhar para essa imagens já tão arquetípicas…

  1. O título “Banquete para as multidões” sugere partilha, coletividade e alimento simbólico. Como esse conceito dialoga com o momento social e cultural em que vivemos?

Difícil não me lembrar, agora, das inúmeras imagens da população de Gaza desesperada por comida. Estive, recentemente, no ateliê de outro artista brasileiro, Matheus Rocha Pitta, aqui em Berlim, onde vivo, e pensei justamente no que significava esse “banquete” ao ver em uma parede o acervo que ele vem criando de imagens de jornal com aquela multidão de famintos. A arte parece muito impotente nesse sentido, mas é antes de tudo um meio para a educação dos nossos afetos, um meio de nos sensibilizar em relação ao mundo… Vejo esse título do Arthur sobretudo como expressão de sua generosidade: diante da nossa impotência, ele afirma, com esse título, o seu desejo de ver um mundo diferente. É também por isso que trago a metáfora bíblica, narrada no Evangelho de Lucas, como epígrafe: “Certo homem preparou um grande banquete e convidou muitas pessoas. Quando tudo estava pronto, seu servo foi avisar os convidados: ‘Venham, está na hora da festa. Tudo está pronto’. Mas todos eles começaram a dar desculpas, um por um. O primeiro disse: ‘Acabei de comprar um campo, e preciso ir vê-lo. Peço que me desculpe’. Outro disse: ‘Acabei de comprar cinco juntas de bois e quero experimentá-las. Peço que me desculpe’. Outro disse: ‘Acabo de casar-me e por este motivo não posso ir’. O servo voltou e informou ao seu senhor o que eles haviam dito. Então o dono da casa irou-se e deu a seguinte ordem ao seu servo: ‘Vá depressa pelas ruas e becos da cidade e convide os pobres, os aleijados, os cegos e coxos’” (Lucas, 14: 16-21).

  1. O público é convidado a se aproximar e se afastar das obras, vivenciando diferentes percepções. Como você, enquanto curador, pensou a disposição espacial das pinturas para potencializar essa experiência?

Moro em Berlim e infelizmente não pude estar no Brasil no momento. De modo que minha colaboração se deu muito mais no plano da conceituação da exposição, através do texto. Claro que venho acompanhando todo o processo com Arthur e com a Matias Brotas e, aqui ali, proponho algumas modificações. Mas o trabalho do Arthur, sem dúvida, fala por si, e sei, por experiência própria no contato com essas obras, que o público será imediatamente impulsionado a se aproximar e se distanciar para ver a textura das obras e esse milagre da transubstanciação acontecer.

  1. Esta é a primeira individual de Arthur Arnold no Espírito Santo. Qual a importância dessa estreia no circuito capixaba e o que você acredita que o público local pode descobrir nessa mostra?

O público capixaba pode esperar uma exposição emocionante. As obras de Arthur tocam, como bem disse, em temas que são arquetípicos… as multidões, os banquetes, a maioria de nós tem memórias e, claro, sensações, em relação a esses “eventos” — sabemos o que significam, podemos dizer: “extra-pintura”. O que espero é que os capixabas se sintam convidados a essa partilha, que apreciem os trabalhos, e que possam se sentir, de algum modo, afetados positivamente por eles.