Arte e Sustentabilidade Transformam Santa Teresa com Mural Feito de Tampinhas

Arte e Sustentabilidade Transformam Santa Teresa com Mural Feito de Tampinhas

Santa Teresa, município serrano conhecido por sua rica herança cultural e belezas naturais, acaba de ganhar uma obra de arte que combina criatividade, consciência ecológica e engajamento comunitário. Um imponente mural construído com cerca de 15 mil tampinhas plásticas recicladas agora colore o muro ao lado da Casa da Cultura, transformando o espaço em um ponto de contemplação e reflexão sobre sustentabilidade.

A idealização e concepção artística do projeto foram conduzidas por Fernanda Vieira, artista capixaba que vem se destacando por sua atuação na fronteira entre arte, meio ambiente e ação social. Com uma carreira anteriormente voltada à produção de grandes eventos culturais e musicais em diferentes partes do Brasil, Fernanda encontrou nas artes visuais um campo fértil para unir suas preocupações ambientais ao desejo de impactar positivamente os territórios por onde passa.

A obra, encomendada especialmente para o FECSTA – Festival de Cinema de Santa Teresa, traz como tema o beija-flor, símbolo do município. Cercado por flores, o pássaro foi inteiramente montado com tampinhas de garrafa PET, previamente higienizadas e organizadas segundo uma paleta cromática vibrante. O resultado é um painel de grande porte que desperta o olhar e convida à contemplação, ao mesmo tempo que provoca a consciência sobre o destino dos resíduos sólidos em nosso cotidiano.

A montagem do mural foi precedida por semanas de trabalho no ateliê do Ponto de Cultura Nanda Produções, localizado em Nova Almeida, no município da Serra. Lá, Fernanda coordenou o processo de seleção, separação, higienização e preparação das tampinhas que posteriormente foram levadas para Santa Teresa. Cada tampinha carrega consigo a história de um descarte evitado, um material ressignificado, um novo uso atribuído àquilo que seria lixo.

Além da instalação artística, o projeto teve um importante desdobramento pedagógico. Foram realizadas oficinas de eco-arte no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do município, voltadas para adolescentes da cidade. Durante os encontros, os jovens aprenderam técnicas de reaproveitamento de materiais, participaram ativamente da montagem do mural e puderam experimentar um tipo de criação artística profundamente conectado com a realidade ambiental do planeta.

“Esse projeto vai muito além da estética. Ele é um convite para refletirmos sobre nosso papel na preservação da natureza e no cuidado com o lugar onde vivemos”, afirma Fernanda Vieira. Segundo ela, o contato com crianças e jovens é sempre um ponto alto das experiências com a arte ecológica: “São eles que mais se encantam, que se envolvem com mais intensidade. Eles ainda têm essa capacidade de se deslumbrar com a transformação de algo simples em algo belo”.

A iniciativa contou com apoio das instituições Reciclamais e COOPAST, reconhecidas por sua atuação na valorização de resíduos recicláveis e na promoção da economia circular. Por meio dessas parcerias, foi possível garantir não apenas a coleta de grande parte das tampinhas utilizadas, mas também o fortalecimento de uma rede de colaboração em torno da sustentabilidade.

Embora a obra seja assinada por Fernanda Vieira, contou também com a colaboração pontual da artista Valdirene D’Ávila durante as oficinas e na fase final da instalação. A contribuição de Valdirene complementou o trabalho educativo junto aos jovens e reforçou o espírito coletivo da proposta.

Esse não é o primeiro nem o último mural ecológico realizado por Fernanda. Sua trajetória recente inclui diversas intervenções semelhantes em escolas, praças e centros culturais, sempre utilizando materiais descartáveis transformados em arte. A artista já tem novos projetos em andamento, com duas obras agendadas para os próximos meses em municípios do interior capixaba, sinalizando a consolidação de um trabalho que ganha relevância regional.

O mural de Santa Teresa é um exemplo concreto do que pode ser realizado quando arte, sustentabilidade e comunidade caminham juntas. Ao integrar resíduos recicláveis ao processo criativo e envolver a população local, a obra transforma um simples muro urbano em manifesto visual de cuidado, pertencimento e reinvenção do espaço público.

Para os moradores e visitantes da cidade, o painel é agora parte do cotidiano e do imaginário coletivo. Ele não apenas embeleza o entorno da Casa da Cultura, como também planta uma semente de mudança: aquela que germina lentamente nos olhares atentos, nas mãos criadoras e nas consciências despertas para um futuro mais sustentável.

Além do impacto visual e ambiental, o ecomural em Santa Teresa inaugura um novo capítulo na relação entre arte e cidadania. O fato de a obra estar situada em um espaço público, ao lado da Casa da Cultura, amplia seu alcance simbólico, tornando-a acessível a moradores, turistas e transeuntes. Essa democratização da arte contribui para a valorização do patrimônio local e para o fortalecimento dos vínculos entre cultura, natureza e identidade regional.

 

Com o apoio de instituições como a Reciclamais e a COOPAST, que atuam na linha de frente da coleta e valorização de resíduos, a iniciativa também evidencia o potencial das parcerias entre artistas e agentes socioambientais. Essas colaborações ampliam o alcance das ações artísticas, transformando-as em ferramentas de sensibilização e mobilização social.

A escolha do beija-flor como símbolo da obra carrega um forte significado. Pequeno, ágil e essencial para o equilíbrio dos ecossistemas, o pássaro representa a delicadeza e a resistência da vida. Ele também se tornou uma espécie de metáfora para o trabalho de Fernanda Vieira: discreto, mas profundo; leve, mas impactante. Ao reutilizar 15 mil tampinhas que seriam descartadas como lixo, a artista convida a todos a refletirem sobre o valor dos pequenos gestos e a importância de transformar o olhar sobre os resíduos cotidianos.

A própria jornada de Fernanda é marcada por essa sensibilidade. Vinda do universo dos grandes eventos, ela redirecionou sua carreira em favor de ações mais intimistas, mas com grande potencial transformador. Seu ateliê em Nova Almeida, onde a obra foi concebida, funciona como um centro de criação, educação e inspiração, acolhendo ideias que nascem do afeto, da consciência ecológica e da escuta atenta às comunidades.

O mural de Santa Teresa não é apenas uma peça decorativa: é uma manifestação pública de afeto à cidade, um gesto de cuidado com o ambiente e um convite para que outros municípios se inspirem e promovam ações similares. Ao unir arte, reciclagem, educação e engajamento social, Fernanda Vieira reafirma seu compromisso com uma estética da responsabilidade e da esperança.